Victor Barreto

Homens

 

“Eu sempre soube que eu era gay, desde criança me senti mais atraído por meninos que por meninas.
Quando eu me dei conta que eu sentia e que não era considerado “normal” eu comecei a trabalhar algo dentro e mim.
Com 15 anos eu fiquei com o primeiro cara. A gente se conheceu pela internet e foi mega decepcionante porque ele era completamente diferente das fotos.
Nessa época eu comecei a fazer teatro e isso mudou minha vida porque conheci muita gente mais cabeça aberta.

Depois disso ainda levei uns dois anos pra contar os meus pais.
Lembro que a gente estava na mesa de jantar. Eu nem tinha ideia de como começar a conversa. Quando eu falei… foi um alivio.

Logo depois meu pai levantou da mesa e minha mãe começou a chorar. Eu perguntei pra ela porque ela estava chorando e ela me disse: achei que eu tivesse te criado diferente que tu saberia que sempre teria espaço pra contar o que precisasse, sem medo”….

Depois daquilo ela foi no meu quarto. E eu lembro de ter chorado pela primeira vez na minha vida por algo meu, por mim”

“…com o meu pai eu levei mais uns três anos pra conversar abertamente sobre isso.

Eu tinha 18 anos e fui morar na Nova Zelandia e como quando tu sai ninguém espera nada de ti. Lá fora era tudo muito diferente.
Eu conheci muita gente legal, muito amigo gay, muita drag, muita travesti.

E comecei a postar umas fotos e tal…
Meu pai me ligou e lembro que custava super caro pra ligar
e ele me pediu pra tirar essas fotos do ar, porque minha família tava vendo e eu me senti seguro de dizer “não, não vou tirar”

Quando eu voltei, voltei viadasso com um colete bem curto uma regata e me sentindo arrasando.
Meu pai me abraçou mas não falou nada. Minha mãe pediu o colete uns dois meses depois e ficou muito bem nela.

Então eu fui morar com o meu irmão por um tempo. Eu tenho dois irmãos adotados. Meus pais são primos e disseram que eu tinha chance de nascer com problemas sérios, a gravidez foi mega complicada, então eles acabaram adotando.

A relação com meu pai tava muito cagada, ele tinha medo de me perguntar coisas porque ele talvez tivesse medo das respostas.

Até que um dia e foi a coisa mais difícil que eu fiz na minha vida.

Quando as coisas estavam insustentáveis porque minha mãe segurava aquela barra sozinha, então eu fui até o meu pai pra ter uma conversa definitiva.
Lembro que entrei no quarto dele, ele estava deitado, me olhou fixo, eu sentei e comecei a chorar….”

“…Lembro que entrei no quarto dele, ele estava deitado, me olhou fixo, eu sentei e comecei a chorar….

Falei que eu senti que a gente tava se afastando e como a gente deveria retomar como era antes.
Ele disse que pra ele era difícil mas que ele ia se esforçar por mim.
E eu vejo o que ele realmente se esforça.
eu tenho muito orgulho dele, porque eu vejo o quanto ele se esforça pra respeitar e entender algo que não fazia parte da realidade dele até então.

Durante algum tempo eu fiz questão de mostrar que era gay logo que conhecia alguém, e tal, mas era meio que um mecanismo de defesa pra afastar pessoas preconceituosas. Com o tempo eu vi isso sendo naturalizado, ficando mais comum e fazendo parte do cotidiano das pessoas, lidar com algo que na realidade, sempre esteve aí.

E também por que nos cabe um papel educador, quando tu se aproxima de alguém e essa pessoa percebe que tu é gay e começa a dizer: pô, fulano eh gay e eu gosto dele, então talvez não seja tao ruim assim.

É incrível que uma característica que era pra ser apenas mais uma na minha vida, tenha definido tantas coisas.
Dá pra perceber uma diferença enorme no mundo de quando eu tinha 16 anos pra hoje. Avanços grandes mesmo.

Pode parecer algo idiota, mas o beijo gay na novela é algo. É ruim porque as pessoas tiram dali muitos modelos de comportamento, mas ao mesmo tempo, as pessoas aprendem por padrões e se esse padrão passa a ser aceito e reproduzido na grande mídia então ele se torna socialmente tolerável. É um começo. Bem como na internet que tem sido uma ferramenta de difusão, um fórum de discussão diário sobre tantas coisas, entre elas a sexualidade.

Eu espero que muito em breve as pessoas não tenham vergonha de aparecer como elas são. Que elas não se ocultem e deixem suas diferenças visíveis.
É extremamente importante que a gente apareça, mesmo que seja difícil e perigoso, porque isso motiva mais e mais gente a ser quem é de verdade.”

“Tem uma frase de uma música do The Smiths que eu gosto muito: “it takes guts to be gentle and kind”. Vai ser a minha primeira tatuagem, sem dúvida. Quero tatuar pra olhar pra ela todos os dias e lembrar que, na maior parte das situações, por mais difícil que seja, um pouquinho de gentileza e amor podem se muito mais eficientes do que uma abordagem mais agressiva.
é muito fácil gritar e ser grosso com alguém numa situação mais complicada, mas acho que também é muito ineficiente. ninguém tá se escutando, dialogando numa situação assim. difícil mesmo é ser gentil, e eu tento lembrar disso todos os dias.”

“Eu comecei a dançar com 24 anos. Todo mundo dizia – e ainda diz – que eu estava muito velho pra começar, que tinha que focar em outras coisas, coisas que me trouxessem resultados mais significativos, mais palpáveis.
Mas aí me diz: tem resultado mais significativo do que se sentir absolutamente maravilhoso? É exatamente assim que me sinto quando danço. Quando percebo que hoje consigo fazer coisas que não conseguia mês passado, quando ultrapasso uma barreira que me parecia instransponível até ontem.
As pessoas esquecem de fazer as coisas simplesmente pelo prazer que elas podem te trazer, sabe? Eu danço porque gosto desafio, porque me faz bem, porque me sinto mais eu, e isso é muito bom.”