Vic Machado

Mulheres

 

“Meu nome é Victória e acabei de fazer 18 anos.
Meus pais se separaram quando eu tinha um ano, meu pai só esperou minha festinha pra sair de casa. Morei até meus oito anos com a minha mãe e minha vó, que viviam em conflitos por uma não entender a outra. Por minha mãe precisar trabalhar fui praticamente criada pela minha vó, ela também foi a principal responsável por eu começar a ler com 5 anos, já que era professora aposentada e tinha toda paciência do mundo pra me ajudar.

Com oito anos minha mãe entrou na justiça para pedir mais pensão pro meu pai e ele entrou com o pedido de guarda, e na visita a assistente social escolhi ir morar com ele. Meu irmão era bebê e eu só queria ficar perto dele.

Mesmo já separados meus pais me criaram com muita briga, era um em cada ouvindo tentando fazer o seu lado, falado um mal do outro, e tentando colocar sempre a culpa no outro, era um inferno. Me sentia uma bolinha de ping pong. Sempre tinha que tomar as decisões de com quem queria ficar, se quisesse ficar com a minha mãe tinha que bater de frente com meu pai e vice-versa. Por ter sempre meus pais em conflito e ir de um lado para o outro eu desenvolvi minha opinião e senso crítico muito cedo, desde pequena eu sei o que eu quero, sei onde quero chegar e tenho uma visão de mundo, sempre tento seguir aquilo que eu acho melhor pra mim, e até hoje nenhum dos dois tem o que falar, pois sempre tive a cabeça no lugar e ambos sabem disso.

Depois de alguns anos morando com meu pai, ele e a mãe do meu irmão se separaram e a convivência entre nós se tornou difícil, até que eu voltei a morar com a minha mãe e minha vó, após quatro anos com meu pai. A convivência entre elas continuava na mesma. Passei toda minha infância vendo minha vó ser internada e tomar antidepressivos, até que ela decidiu que aquilo não era pra ela, há seis anos minha vó é uma pessoa completamente diferente daquilo que eu cresci vendo, parou com os remédios e nunca mais havia sido internada.”

“Esse ano foi o mais diferente de todos até hoje, terminei meu namoro há um ano e mudei completamente, hoje sou uma pessoa mais aberta pra vida e livre, me sinto muito bem sozinha, principalmente depois de ter me relacionado com uma pessoa durante um período desse ano e quase ter perdido a vida, literalmente. Terminei meu ensino médio e 2015 me cobrou mais responsabilidades, como trabalhar e estudar para o vestibular, estou estudando pra entrar na faculdade e ainda não sei o que quero, não tenho sonho de ser médica, engenheira, advogada ou qualquer outra coisa. No momento meu principal objetivo é morar sozinha.
Minha mãe era a melhor amiga que eu tinha no mundo, por eu ter me afastado tanto tempo do meu pai minha mãe havia se tornado meu chão e hoje em dia estamos completamente afastadas, por razões pessoais. Por vários motivos fui morar com a minha avó, estava a quase dois meses morando com ela, vivendo um dos melhores momentos da minha vida, ela se tornou o chão que eu já não tinha mais. Ela me acolheu e tentou dar tudo de melhor pra mim, eu estava trabalhando e fazendo cursinho pré-vestibular e tudo estava indo muito bem, eu estava feliz como a muito tempo já não estava na casa da minha mãe. Até que no dia 29/10 aconteceu uma invasão da polícia na nossa casa, eles estavam atrás de traficantes que moravam naquele endereço antes da minha avó e com uma investigação completamente falha que durou seis meses eles mudaram nossas vidas. Desde aquele dia minha avó só decaiu, não saia mais da cama e não conseguia mais ficar naquela casa, eu prometi cuidar dela e estava tentando cumprir, mas meu psicológico também estava e está abalado. Ela parou de se alimentar e a pior decisão deve que ser tomada, ela foi internada. Há seis anos eu não via minha avó como ela está agora e mais uma vez perdi meu chão. Toda felicidade que eu estava nesses últimos meses foram por água a baixo em uma manhã. ”

“Se você acordasse amanhã apenas com o que agradeceu hoje, o que você teria?” Um dia escutei essa frase e ela marcou muito minha vida, e apesar de tudo isso que já aconteceu comigo e está acontecendo no momento eu agradeço todos os dias por ter voltado a falar com meu pai e nossa relação ser maravilhosa, apesar das diferenças, agradeço por ele ter me presenteado com a pessoa mais importante em todo o mundo pra mim, meu irmão.
Eu agradeço pelas pessoas sensacionais que entraram na minha vida esse ano, principalmente as que eu conheci depois que participei do Bendito Fruto, e agradeço por me sentir amada.
Eu agradeço por estar conseguindo ser forte e lutar pelo que eu quero, e agradeço por, apesar de tudo, sempre levantar a cabeça, colocar um sorriso no rosto e seguir em frente, aprendi com a vida que nada dura pra sempre, nem a dor.”