Taimá Walther

Eu sou boa em falar. Se tem uma coisa que eu sei fazer, essa coisa é falar. Eu falo demais, inclusive, e tenho certeza que isso é bem visível. Mas falar de mim, talvez não seja tão fácil. Acho fortemente que todos têm uma parte de si escondida, porque é um princípio básico da autodefesa que o cérebro cria. Mostrar-se por inteiro é um desafio, quando a sociedade nos diz desde o que vestir até como se portar (se for mulher, então, pior ainda). Não bastasse o meu medo enorme de assumir minha fragilidade, desde que eu comecei a escolher minhas próprias roupas, passei por vários episódios de questionamentos no melhor estilo “Essa saia não tá muito pequena? Esse decote não tá muito grande? Tu vai sair assim???”. Por isso que, quando eu conheci O Bendito Fruto em um desses acasos do Facebook (~páginas que você pode gostar~)… foi paixão a primeira vista. Fiquei um bom tempo namorando o projeto. Por na época estar namorando uma pessoa, foi complicado de me tornar parte antes.

Apesar de representar muito do que eu sou e ter me apoiado muito em momentos que eu precisei mais que tudo, o meu namorado não compartilhava do meu conceito de amor.

E, na verdade, a concepção de amor para muitas pessoas que eu conheço não me representa. A romanização da relação que torna as pessoas “um ser só” não é saudável. Amor é individualidade pra ser completo sozinho e, na união, só acrescentar. Amor é soma e é dar toda a liberdade pra coisa amada crescer, sempre, independente de como for. Ainda assim, depois de algum tempo solteira, finalmente eu tomei coragem.

Eu, Taimá (sim, tem uma história engraçada sobre a origem do meu nome), 20 anos, nascida em Porto Alegre… Quando eu falei em casa sobre as fotos, as reações foram diversas, como sempre são na minha família. Mas queria dizer que sim, mãe, eu tirei foto pelada!!! Comigo moram irmã e a filha dela (vulgo minha afilhada maravilhosa), irmão e seu filho hamsterzíneo, minha mãe e os catioríneos. Pra fechar minha família, eu cito a parte crucial de quem eu sou, pai. Pai que já partiu em corpo, no começo de 2015, mas continua comigo em ideais e lembranças cheias de amor. Pai que viveu a vida exatamente como quis, deixando esse mundo relativamente cedo como consequência e me deixando lições que moldam fortemente a forma como eu encaro o que me cerca. Por tudo o que ele me ensinou em vida, sempre encarei as coisas como incertas em tempo de duração, mas inevitavelmente com início, meio e fim. Aceitar a morte das fases da vida e da vida como um todo é o presente mais valioso que ele me deixou. Quanto ao restante dos familiares, eu olho muito pra eles, querendo refletir sobre quem eu sou, por prezar muito meu autoconhecimento. Na infância, quando a mãe trabalhava e nos deixava em casa, foi onde eu aprendi que três crianças em um apartamento podem inventar muito mais artes do que a mente mais criativa possa imaginar. Na adolescência, não tão distante do agora, descobri o quão difícil pode ser conviver com tanta gente em casa – ou, ao menos, com pouca gente que ocupa em personalidade mais espaço do que o apartamento oferece. Hoje, nessa fase que eu não sei qual termo usar pra definir (o presente permanece sempre o mais desconhecido), sei que eu não saberia existir sem toda essa intensidade que corre nas veias familiares. Dentro dessa metafísica, uma das minhas descobertas recentes foi saber que nós somos “poeira de estrelas”. Isso é verdade? Me impressiona demais olhar pro universo e perceber, sob uma perspectiva tão enorme, o quão complexo ele é. De qualquer forma, eu tenho uma leve desconfiança de que, se eu tenho material de estrela no meu corpo… Olha, acho (só acho) que essa estrela era muito indecisa. Tomar decisões pra mim é absolutamente difícil. Não foi sempre assim, antes eu era mais determinada.

Mas chega aquela parte da vida na qual a gente põe os pés no mundo de fato e percebe que as possibilidades existem em número muito maior do que a gente via de dentro de casa. Eu saí do ensino médio querendo cursar Letras na UFRGS, entrei em Relações Internacionais na Uniritter e saí de lá pra Publicidade e Propaganda na PUCRS. Hoje, em Jornalismo (ainda na PUCRS), me questiono o tempo todo quando que eu vou conseguir conciliar o que eu quero de mim com o que eu quero do mundo. Porque é difícil decidir isso, difícil demais, quando toda essa poeira de estrela nos cerca, com letreiros luminosos, caminhos e pessoas que são um universo inteiro e se cruzam pra nos fazer mudar a rota.

Com a consciência de toda essa imensidão, se eu pudesse pedir uma coisa pra todos que leem essas palavras agora, meu pedido seria pra que a gente aprenda a praticar a empatia. Não falo isso de uma forma completamente altruísta, porque amor próprio é, sim, termo chave. Mas as relações precisam ser humanizadas. Afinal, nós somos humanos. Quando eu era criança, na escola, sempre tive problemas pra socializar. Quer dizer, não só quando eu era criança, porque eu sou absurdamente ogra, quase sempre. Mas, principalmente na infância, eu era de pouquíssimos, raros amigos, e era alvo de muitas brincadeirinhas que, tempos depois, me contaram que era o tal de bullying. Isso (e crescer em uma casa com pessoas que, por serem muito intensas, geram muitos conflitos) me fez ir por um caminho do pensamento onde, inevitavelmente, eu precisava me colocar no lugar dos outros. Nossas atitudes podem, e muitas vezes vão, machucar o próximo. Isso, por si só, não é um problema. Quem me conhece sabe que “eu não escolhi a zoeira, ela que me escolheu”. Mas as pessoas têm limites, sim! E aí é que mora o problema: não respeitar o limite alheio. Nessa coisa toda de sociedade, tentar entender porque as coisas são como são torna tudo mais saudável. E, quando se vê as pessoas como pessoas que elas são, fica muito mais fácil de ter empatia e assumir a responsabilidade pelas reações das nossas ações.