Stefani Roppa

Mulheres

 

“Eu estudo ciências sociais com muito orgulho apesar de achar que não me encaixo muito nesse meio, porque eu sou mais pra antropologia. Por pior que tenha sido o meu dia, as aulas fazem tudo ficar melhor. Eu posso estar morrendo de sono, cansaço, tudo… Quando a aula começa eu simplesmente me transporto”.

– E como surgiu essa paixão tão forte pela antropologia?

– Eu conheci pela oitava série, e me apaixonei. Quando meu professor explicou que fazia parte das ciências sociais eu descobri que era isso que eu queria. Às vezes eu ainda acho que não aconteceu em ter passado de primeira. Que isso não é real. Eu passei pelo Sisu e que eram muitas, muitas pessoas pra apenas 4 vagas. Pra tu ter uma ideia, eu tive que sentar no chão porque não tinha nem mais cadeiras na sala. Na última, eu já estava totalmente sem esperanças, mas me chamaram. Eu demorei pra assimilar e pra publicar porque quando eu saí, ficava lendo o papel, pra acreditar mesmo. Estudei a vida inteira em escola pública e era complicado, alguns anos não havia nem professor para algumas matérias. Então fiz o pré-vestibular com o terceiro ano e era tanta informação que eu não conseguia nem mais ler, porque meu cérebro estava travado.

“Fui criada pela minha madrasta e meu pai desde os 3 anos. No começo, eu tinha muito medo de conhecer ela porque minha mãe biológica e minha avó materna me diziam muito que a mulher que meu pai namorasse levaria ele embora. E eu era muito ligada ao meu pai. Quando ele saia eu chorava muito. Me lembro no dia que ele disse que eu ia conhecer minha “mãedrasta”. Eu lembro de passar no Zaffari, e comprar flores pequenas pra ela. Mas eu estava com muita raiva. Eu fiquei sem falar com ninguém o final de semana inteiro. No Domingo a noite, ela estava se arrumando pra ir embora. Eu lembro de estar passando pelo corredor, e entrar no quarto do meu pai onde ela estava pedindo pra ela ficar, e ali começou a nossa relação.

Ela cortava minhas unhas, puxava minha orelha quando eu ia mal na escola, fazia a comida do jeito que eu gostava porque eu tenho minhas manias pra comida. Eu me dou muito melhor com ela do que com o meu pai, na maioria das vezes. Eu tenho um irmão pequeno que todo mundo acha que é meu filho pelo jeito que eu trato ele.”

“OK. Eu tive uma fase emo! Usava roupas mais escuras, sempre com fone de ouvido no volume máximo. Porque eu não queria mesmo que as pessoas conversassem comigo. Mas foi uma fase que eu pensei demais na vida. Até então eu não ligava pras coisas. Mas nessa época eu comecei a me questionar sobre o meu passado. Comecei a guardar rancor e uma magoa enorme da minha mãe biológica”.

“Quando eu tinha 2 anos, eu estava com a minha mãe biológica, ao menos é assim que contam. E dizem que eu tomei uma dose grande de calmantes. Eu fui parar no hospital quase morta. Nessa época minha avó prometeu que se eu sobrevivesse, ela iria a missa todos os domingos. Mesmo tendo apenas dois anos, eu consigo lembrar muito nitidamente de algumas coisas. Como a pulseira do hospital, do cateter no meu braço, de sentir aquilo me incomodando. Lembro do meu pai, usando o mesmo casaco de couro que ele usou a vida toda. E logo depois disso, minha mãe sumiu, me abandonou por um tempo”.