Sanmya Mocelin

Mulheres

 

“(…) Sempre fui mais ligada à minha mãe, eu falava que quando meu pai morresse não iria chorar. Então um dia ele me ligou e disse que me amava. Eu disse que ele tava falando besteira. Passei o telefone pra minha mãe e não falei mais com ele. Dois dias depois ele sofreu um infarto e faleceu, sem ouvir que eu amava ele pela última vez.”

“Meu sonho é viajar pra Dubai mas ao mesmo tempo eu não me vejo saindo de Porto Alegre por causa da família, eu sou muito ligada a minha mãe”.

– Quando eu fui decidir qual curso ia fazer, eu queria administração, mas acabei optando por psicologia. No começo eu não tinha ideia de que daria certo, mas hoje eu amo isso.

– É? Por que?

– Pelo meu estágio. Desde que eu soube dessa opção, eu não quis nenhum outro. Me inscrevi só pra ele, já certa de que ia passar. E passei.

– E como é lá?

– Eu trabalho com um grupo de passagem, é como se fosse uma ala temporária na instituição. São adolescentes com psicose, autismo e outras situações… nós não temos acesso aos diagnósticos pra não criar rótulos. A gente trabalha com a historia deles. No primeiro dia eu achei que não fosse conseguir, eu fiquei muito tocada. Cheguei em casa e falei pra minha mãe que não ia conseguir mais voltar. Mas eu voltei e hoje não sei mais como seria não estar lá.

– E nesse estágio teve algum caso que te comoveu mais?

– Tem um menino que tem um caso degenerativo.
Disseram que ele não passaria dos 12.

Hoje ele tem 17.
Ele quase não tem movimentos ou resposta, então eu achava que estar ali com ele não fazia diferença alguma.
Um dia eu coloquei um agogô na mão dele enquanto a gente assistia uma apresentação de capoeira e eu percebi algo no olhar dele então fui fazendo isso todas as vezes depois.

Agora ele faz um movimento com a mão, então eu consigo ver evolução nele.

– Se tu pudesse comparar tua vida com um filme, qual seria?
– A Era do Gelo…. porque eu me identifico muito com o Sid, sou atrapalhada igual ele.