Renata Schmorantz

Mulheres

 

“Bom, tenho um pouco de dificuldades para falar e me expressar, mas vou tentar me apresentar.
Meu nome é Renata, tenho 18 anos, nasci em uma cidadezinha chamada Coronel Barros, no interior do estado.
Com 5 anos meus pais vieram para o interior de Viamão, onde me mudei diversas vezes, mas sempre entre cabanhas e chácaras.
Então, mesmo com todos os problemas familiares, tive uma infância muito gostosa.
Quando eu tinha 15 anos, compramos uma casinha praticamente no centro da cidade.
Creio que foi nessa época que comecei a descobrir a vida, a me descobrir.
Foi ali que começou a construção de alguém que as vezes eu tenho que desconstruir. ”

“Meu pai até meus 7 anos era meu Super-herói.
Com ele eu aprendi a encilhar um cavalo, aprendi a sempre me virar sozinha.
Posso dizer que ele me ensinou os extremos das pessoas, pois depois que eu fui crescendo percebi que as coisas não eram bem da forma que a minha inocência via.
Ele era e é até hoje alcoólatra, e sempre foi muito agressivo.
Não culpo somente ele, atualmente entendo que ele já passou por muita merda também.
Lembro das primeiras agressões psicológicas e físicas, como se fosse ontem.
Nunca foi fácil a convivência com ele, mas quando fomos morar na cidade as coisas só pioraram, ainda mais que sempre apoiei a minha mãe para estudar e crescer na vida. Isso foi fazendo ele criar uma raiva de mim, pois sempre fui a mãe da minha mãe.
Eu fui crescendo, criando minha personalidade, e as coisas foram piorando.
Mais e mais…
Ele estava sempre bêbado, e agredia a minha mãe psicologicamente de uma forma, que me rasgava por dentro.
Ela tentava pedir a separação já há anos, mas o resultado era sempre o mesmo.
Agressões, mais agressões e cicatrizes de um relacionamento abusivo que durou 20 anos.
Então eu acabava sempre me metendo nas brigas, pois eu nunca deixaria ele machucar a pessoa mais importante da minha vida.
Chegou em uma fase onde eu não aguentava ouvir a voz dele, as ameaças, os cheiros da bebida entranhavam nas paredes da casa e do meu corpo.
A cada gole de álcool, ele ia destruindo a nossa família.
Na última briga, ele tentou me matar.
Ali foi o fim, a menina que morava em mim, naquela noite morreu.
Eu saí de casa de chinelo e pijama, deixei tudo para trás.
Levei apenas a minha mãe e a vontade de viver em paz.
Não tínhamos nada.
Casa, roupas, dinheiro, comida, documentos.
Tudo ficou.
Começamos do zero, quase passamos fome e não tínhamos um lugar para dormir.
Eu tive que largar meu curso técnico de Zootecnia e achar um trabalho para ajudar a colocar comida na nossa mesa.
Ele continuava a nos machucar, mesmo de longe.
Mas com o tempo as coisas foram se ajeitando, para mim e para a minha mãe é claro.
Porém meu pai me tornou uma pessoa muito agressiva, cheia de rancor e magoas.
Simplesmente me fechei para todos, para o mundo, liguei o foda-se sabe?
Hoje, depois de mais de um ano de tudo isso ter passado eu estou conseguindo conversar com ele.
Com a ajuda do meu melhor amigo, eu consegui entender e perdoar.
Sempre me culpei muito por não conseguir ajudar meu pai, e depois me culpava por não querer ver ele.
Dói muito, porque eu amo ele de uma forma inimaginável, e a única coisa que eu queria é que ele conseguisse encontrar paz e ser feliz.
Então cada vez que ele tá triste, eu fico acabada.
Eu sei que é difícil para algumas pessoas entenderem como eu amo tanto alguém que quase destruiu a minha vida.
Eu também tenho dificuldades pra entender.
Mas tem uma coisa, sabe.
Amor não se explica. Amor não faz sentido. Amor só se sente.
Então enquanto eu estiver viva, eu vou fazer de tudo por ele.
Tudo que estiver no meu alcance pra ajudar, até quando ele não quiser ajuda, eu vou fazer.
Nunca vou desistir dele, pois além dele ser meu pai, eu simplesmente amo ele!”

“Eu sou Bissexual.
Demorei anos para conseguir aceitar e expor a minha sexualidade.
Lembro de como foi a primeira vez que fiquei com uma menina.
Eu simplesmente enlouqueci quando senti que eu gostava daquilo.

Travei uma luta interna e não entendia porque as pessoas achavam errado algo que ao meu ver era e é tão bom e tão normal.

Ao mesmo tempo que me perdi pelo corpo feminino, conheci o corpo masculino e me encantei.

Nesse momento eu realmente fiquei confusa.
Vivi nessa confusão por muito tempo, sem saber o que eu queria.
E há pouco que consegui aceitar que gosto de pessoas, pelo que são, sem me ater a gênero.
O que isso muda?
Nada!
Tenho família, amigos, namorado, eu trabalho, cozinho, estudo… Não é a minha sexualidade que interessa e sim meu caráter.

O problema é que as pessoas bissexuais ficam invisíveis quando entram em um relacionamento, pois de fora a sociedade já as classifica como hétero ou gay.

A falta de conhecimento das pessoas sobre os bissexuais, gera muitos mitos, como o de que bissexuais são pessoas sem sentimentos que brincam com outras pessoas e que podem escolher livremente entre se relacionar com homens ou mulheres. Mas a verdade é que não é uma “escolha”. Ninguém, jamais conseguiu escolher de quem ia gostar.

Ser bissexual, não é como dizem uma “opção sexual”. Eu não acordei um dia pensando em me sentir atraída por um tipo de pessoa.
É apenas parte do que eu sou como ser humano.
A ideia não é impor meu modo de viver para as pessoas, eu só quero respeito.

E gostaria muito que fosse mais fácil de aceitar que pessoas podem gostar de pessoas, apenas isso.

Aceitar-se é a questão mais importante dentro da sexualidade. Ela vem antes do “entender-se”. E a confusão mental, de quem sente algo tão amplo é enorme. Pois somos ensinados que devemos sentir algo muito direto e objetivo e sentimentos são coisas bem maiores e mais abrangentes.
Precisamos nos entender, nos aceitar, entender o que sentimos, saber expressar e como qualquer pessoa, enfrentamos essas dificuldades no desenvolvimento da nossa personalidade.
muito triste perceber como as pessoas mudam ao saber que você é diferente delas.
Um bissexual sofre muito com o pré conceito e com medo causado pela falta de conhecimento sobre a sua condição.
Não é porque eu sou bissexual que eu vou sentir atração por qualquer mulher ou qualquer homem que apareça na minha frente.

O engraçado é que um dos maiores responsáveis pela aceitação de quem eu sou, é meu namorado, que é homem e hétero.

Foi ele quem me incentivou a parar, pensar melhor sobre quem eu sou, o que eu sinto e o que eu quero. Me entender e ajudar a aceitar isso e assim também, falar abertamente sobre o assunto pra que também outras pessoas pudessem passar pela mesma experiência de auto conhecimento e debate sobre isso.

Somos muito mais do que apenas nossa sexualidade, embora ela seja uma característica marcante do nosso ser, não devemos ser limitados apenas a ela. Ela não afeta nosso caráter.

É muito difícil se encontrar num universo que não tem referencias.
Gays, lésbicas e trans começam a finalmente ganhar espaço e ter voz na mídia e na sociedade, mas não existe uma bandeira bissexual e essa falta de norte dificulta ainda mais a nossa compreensão e a compreensão dos outros a nosso respeito. Por esse, entre tantos outros motivos, eu decidi falar sobre mim.”

“Hoje é o aniversário da pessoa que eu mais amo na minha vida.
E foi por isso que decidi fazer o ensaio agora, para fazer uma essa homenagem para ela!

Ela é a pessoa mais linda de todas, e não estou falando apenas de aparência física, estou falando de caráter, de coração e de alma!

Sempre foi, é e sempre vai ser o exemplo de mulher que quero ser.

TODAS as vezes que precisei dela, ela me pegou no colo, independente da minha idade ou da merda que eu tinha feito.

Sempre me apoiou, até nos meus erros, pois ela dizia ter me criado para o mundo, e que eu iria aprender tudo sozinha, nos meus tombos e levantando deles.
E que sempre estaria ali para eu chorar, sorrir, ou apenas ficar em silêncio dentro do abraço dela.

Nós temos uma sintonia de outro mundo.
Se ela tá triste, eu sinto. Se eu tô machucada ela também sente!

Ela me apoiou quando eu beijei uma menina pela primeira vez. Lembro de estar em prantos nos braços dela e ela falar com um sorrisão no rosto:
“Filha, calma. Não tem nada de errado em gostar de alguém. Muito pelo contrário, isso é lindo!
Não fica com medo, não importa o que tu faça.
Nunca vai me decepcionar, pois eu te amo!”

Como não ser apaixonada por um ser humano assim?

Quando eu resolvi abraçar o mundo, e abrir meu coração novamente.
Ela estava comigo, dizendo:
“Não fica com medo, se tu ama ele vai sem olhar para os lados!”

Eu fui, e hoje ele se tornou meu melhor amigo também.

É óbvio que temos amor de mãe e filha, mas antes de qualquer coisa ela é minha melhor amiga.

Melhor amiga mesmo! De comer brigadeiro na TPM, ou de contar qual posição tinha rolado na noite passada. É realmente tudo.

Eu tenho tanto orgulho dela, que não cabe em mim!
Tanto amor por ela que dá vontade de gritar para o mundo.

Nós passamos por muita coisa, e a cada dificuldade ficamos mais juntas.

Quando saí de casa por conta do meu pai alcoólatra, ela pegou na minha mão e nós largamos tudo!
Superamos as agreções, os cortes cicatrizaram…
Mas tudo graças ao amor, ao nosso amor.

Hoje se sou uma pessoa boa, devo tudo á ela!

Minha mãe é a pessoa mais forte e ao mesmo tempo mais doce que eu conheço!
É aquela que infelizmente ou felizmente, sempre sabe das coisas.
É a minha melhor amiga, e melhor conselheira.

Entre outras qualidades e coisas que ela representa pra mim, ela é o amor da minha vida!

Sou eternamente grata por tudo que ela fez e faz por mim.

Parabéns por mais um dia de vida!
E obrigado por mais um dia na minha vida.”