Paula Lauffer

Mulheres

 

“Dia 30 de Julho faz um ano que eu saí de casa…
Dois dias antes disso eu batia na porta das pessoas pra falar sobre a palavra da bíblia.
Foi uma mudança muito brusca.
Dentro da congregação eu era uma referência e eu tinha uma carreira toda lá dentro, então quando eu comecei a mostrar que não era isso que eu sonhava pra minha vida e as coisas entraram em rota de colisão.

Eles, meus pais, já tinham planejado a minha vida mas eram coisas diferentes do que eu queria.

Eu respeito, se é a forma de felicidade que eles escolheram, eu aceito, apoio muito a felicidade alheia.
Mas quando eu escolhi outra realidade,outro sonho, outra felicidade que na época, ninguém tolerou.

Não queria fazer nada de condenável, apenas ser quem eu sempre quis.

Ate hoje não sei se me toleram, mas todas as vezes que nos vemos, eles tentam fazer com que eu volte….”

Quando tu acha que essa mudanca começou? – Com uns 14, 15 anos.
Eu sempre gostei de ler, as vezes eu passava horas no quarto lendo e nisso eu comecei a ver outras perspectivas, questionar os conceitos e os dogmas que eu vivia, e então ver coisas mais interessantes e que faziam mais sentido pra mim.

Gosto da frase iluminista: “Ler é um ato revolucionário”!
…conhecer outros pontos de vista é necessário…

Como ficou tua relação com teus pais quando tu percebeu que discordava de tanta coisa que até então eram as tuas “certezas absolutas”? – Foi tenso porque a nossa relação mudou muito a partir do momento que comecei a ter uma opinião diferente
e se tem um cara que eu gosto muito, é meu pai.
Tudo que eu sou, a cultura, inteligência e juízo, eu devo a ele.
Meu gosto musical é da minha mãe, Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana… rock gaúcho e internacional… A gente limpava a casa juntas, colocava no home theater e cantava junto histéricamente… Pink Floyd, MPB e música erudita eu descobri sozinha.
…Star Wars, meu pai era fascinado por Star Wars.
Antes de eu sair de casa, ele estava fazendo um cosplay de Darth Vader pra ir comigo no Anime Extreme, estava quase pronta, eu fui embora e sei que o cosplay está lá, inacabado até hoje…

“…E tem que ter um psicológico muito forte pra abandonar a própria realidade e começar do zero.
Tenho saudades de muita coisa.
… com o meu ex eu aprendi muita coisa, essa coisa de relações humanas. Eu havia convivido só com os meus pais,
conviver pra valer, com outra pessoa, foi um aprendizado e tanto, um grande desafio.
Relacionamento é algo muito complexo, muito controverso, é uma das principais necessidades humanas, e não sabemos usar.
Eu tenho entendimento que as coisas são volúveis.
Eu tenho a firmeza de opinião com relação do que eu penso, mas eu entendo que isso pode mudar e que o “certo” é questão de ponto de vista e de momento.
Eu não tento impor essa opinião sobre as outras pessoas, tipo Raul Seixas, metamorfose ambulante.”

“Não gosto de arte por arte, essa coisa de olhar um quadro qualquer, as pessoas olham e pensam ‘ah, que bonito’ e vão embora…
Quero um dia poder ajudar as pessoas com a arte que faço, que elas olhem pra o que eu fiz se questionem, que abram a mente, que se desprendam de tudo o que nos aliena.
Amo pintar mulheres e amo simbologia, mulher é uma das coisas mais lindas e revolucionárias que existem
Pelas coisas que desenho e pinto as pessoas me julgam muito, acham que sou homossexual e uso drogas, e não é nada disso, sou louca assim mesmo, na verdade vejo que ultimamente o povo anda remetendo a genialidade dos artistas com base nas drogas que eles usam, não acho isso legal.
Mas também se eu gostasse de mulher e usasse drogas, seria problema todo e completamente meu.”