Paula Lauffer

Mulheres

 

“Transição.
Numa transição de um lugar ao outro não conseguimos fixar os olhos em algo por muito tempo, só nos importa o destino, só nos importa onde queremos chegar.
Estou assim, em transição.
Mudei um pouco o caminho, peguei alguns atalhos, tive e estou tendo alguns problemas no percurso, que tive de alongar em algumas horas a viagem, e sei que muito me espera pela frente.
Eu já quis dar uma parada em alguns lugares (em algumas pessoas), mas é a vida, ela não nos permite ficar inertes.
Mas não consigo me definir parada, não consigo me definir com nenhuma certeza, na verdade não gosto de certezas, gosto dos três pontos, do ponto de interrogação e de sempre ter a pulga atrás da orelha do velho “Será?”
Antes eu tinha várias certezas, como eu era tola.
Com 20 anos a gente não é nada.
Sinto muito, tudo, sinto o universo inteiro.
Gosto de definir como isso porquê o universo é onde definimos a grandeza e a expansão de todas as coisas. Estou aqui agora, falando contigo, focada na ocasião, mas no momento também estou pensando em uma pessoa querida, no vestido azul da moça que acabou de passar ou se a velhinha que foi assaltada comigo ficou bem depois daquele dia.
E há ocasiões que estou à pensar e sentir nada, como se tudo fosse um grande vazio.
Bem como a cena de Pink sentado na poltrona em Confortably Numb.
E creio que estes vazios são essenciais para poder assimilar o transbordamento de ideias e intensidade com qual sinto todas as coisas.
É uma abstração com coisas concretas, entende?”

“Até pouquíssimo tempo eu me bloqueava, não me entregava por inteiro, não externava quando sentia algo com intensidade maior que o normal.
Hoje eu liguei o foda-se, e falo mesmo, e sinto mesmo, e enfrento mesmo.
Ser rídicula, idiota e chata às vezes não tem problema nenhum.
Isso me faz humana, isso me torna viva.
Amo errar e aprender com o erro depois.
Se tem uma coisa que não quero levar dessa coisa toda é o arrependimento de não ter tentado.
Eu estou aprendendo à suportar eu mesma.
E todos os dias eu conheço uma face diferente da Paula.
O processo de auto-aceitação é constante, todos os dias a gente descobre um tabu novo, um preconceito novo dentro de nós mesmos, exterminar por completo a faculdade que temos de julgar todas as coisas é uma guerra forte.
Passei por coisas nesse 1 ano e meio fora da casa dos pais que nunca imaginaria passar.
Cresci anos em meses, semanas e dias.
Tomei decisões não tão sábias, escolhi pessoas e lugares não tão bons, mas não me arrependo, vejo que foi muito útil passar por isso tudo.
Abri tanto a mente, deixei entrar tanta coisa dentro de mim que ainda não consegui mensurar em como isso tudo me afetou e me marcou.
Mas passei por coisas que me deram uma percepção fora do comum com respeito às coisas, com respeito as pessoas, as relações, os homens e as mulheres.”