Monique Rodrigues

Mulheres

“Nasci em uma família de três irmãos. O mais velho era filho de outro pai, e morava com minha avó materna (eu nunca entendi muito bem o porquê dele não dividir a casa com a gente). Depois vinham minhas duas irmãs. Minha mãe não podia mais engravidar, pois tinha um sério problema no coração, mas engravidou. Aí que eu entro na história. Como ela tinha restrições médicas para não engravidar, todos temiam pelo momento do parto.

Chegou o grande dia 28/05/1992, ela foi levada até o hospital, com muito cuidado e com mais cuidado ainda os médicos a levaram para o quarto onde seria o parto. Lá pelas tantas; como já era de se esperar; as coisas ficaram um pouco tensas. A pressão arterial dela subiu muito e coração não estava correspondendo bem. Os médicos faziam de tudo, até que sem muito sucesso, eles foram até meu pai e minhas tias e disseram:

-Infelizmente o parto é de alto risco. Não conseguiremos manter mãe e filha. Qual das duas salvamos?

Eles tiveram que escolher e pediram que os médicos salvassem minha mãe. Eu faria o mesmo.

Mas por uma obra divina, contrariando os atestados médicos e após minha mãe ter tido uma EQM (experiência de quase morte) ficando desacordada por alguns segundos sem nenhum batimento cardíaco, eu nasci.

Nós duas sobrevivemos, foi uma vitória.

Pode parecer estranho, mas eu lembro exatamente como foi uma das primeiras vezes que abri meus olhos, quando bebê. Ninguém acredita, eu tinha poucos dias de vida e essa lembrança sempre me acompanhou. Eu estava em casa, no quarto dos meus pais, abri os olhos e vi cores nas paredes. Lembro até a sensação, foi como um despertar, um despertar de um sono profundo. Como se eu tivesse dormido milhares e milhares de anos e enfim acordado. Sim, é estranho, mas aconteceu.
Nunca me senti uma pessoal normal, se é que posso dizer isso.”

“Os primeiros quatro anos foram maravilhosos. Meu pai, era meu herói, minha mãe a super mulher e minhas irmãs as fadas madrinhas.
Nossa, quando penso nisso, sinto exatamente aquela sensação de proteção e afago de novo…

Não demorou muito para eu perder aquela inocência e começar a perceber tudo que acontecia a minha volta.

Meu pai bebia e bebia muito. Todo final de semana ele chegava em casa muito alcoolizado. Eu sentia um certo medo.

Minhas irmãs estavam com 10 e 14 anos, mas compreendiam tudo que acontecia a nossa volta e quando conversávamos sobre ele, elas falavam com desprezo e medo nos olhos.

Eu pensava que elas estavam completamente erradas. Depois disso comecei a observar melhor e perceber que ele bebia e voltava para casa muito agressivo, brigava, xingava, ofendia minha mãe com muitas palavras. Conforme os anos iam passando eu via minha família se deteriorar.

Num certo dia minhas irmãs brigaram e as duas nunca mais se falaram depois disso, mesmo morando na mesma casa
Nasceu um ódio entre as duas difícil até de explicar.
Meus pais tentaram resolver isso logo no começo, mas nada podia ser feito.
Atualmente, 14 anos depois de tudo, ambas já estão casadas, mas até hoje não se falam.
Nunca compreendi isso totalmente.

Aí imagina a cabeça de uma criança de 5 anos, que via o pai bêbado fazendo ameaças e duas irmãs se jurando ódio, tudo dentro da mesma casa. Complicado.

Meus pais nunca foram daqueles que diziam o que era certo ou que era errado, qual rumo tomar na vida nem nada do tipo. Aprendi sobre coisas básicas como lavar uma louça, combinação de cores, sexo, drogas, e até mesmo como se portar em uma mesa, por aí, um pouco na rua, um pouco na televisão e sempre me senti muito esperta e independente deles.

Quando eu já estava mais grandinha, minha mãe me levou para passear e “por acaso” encontrou um homem. Esse homem era amigo da nossa família e eles conversaram por horas e me mandaram brincar na pracinha. Não vi problema naquilo, afinal ele era amigo de todos lá em casa. Aquilo se repetiu conforme iam passando os dias, eu já sabia o que estava acontecendo, mas não queria aceitar. Um dia vi os dois se beijando, fiquei muito confusa, fui perguntar para a minha mãe o que estava acontecendo. Ela me falou que meu pai era muito agressivo e que aquele homem fazia ela se sentir bem, e que meu pai merecia pela pessoa que ele era. Eu confiei nela. Eu era uma criança e acreditei que aquilo era o melhor pra ela, a minha super mulher. Anos depois fiquei sabendo que aquele não foi o único romance dela durante o casamento deles. Triste isso.”

“Na infância sempre fui muito calada. Não brincava com as outras crianças e qualquer adulto que falasse um pouco mais grosso comigo, me fazia chorar.
Na escola tive vários amigos, mas meu melhor amigo era o famoso bullying, coisa que na minha época chamávamos de humilhação mesmo. Eu sempre fui muito alta, magra, chamavam meu cabelo de pixaim. Meus pais pensavam que já que meu cabelo não era liso, a única forma de deixar ele arrumado era cortando todo mês. Eu parecia um menino.

Essa combinação de características era mais do que suficiente pra eu sair da sala de aula e voltar pra casa aos berros. Eu chorava muito, mas não contava em casa. Quando completei uns 11 anos percebi meu corpo mudando aos poucos. Eu sonhava em ter um corpão igual aos das atrizes ou das modelos nas capas das revistas.

Minhas amigas já estão tendo suas primeiras experiências amorosas. Eu esperava ansiosamente para ter a minha. Eu bem que tentei, mas os garotos me chamavam de todos os apelidos possíveis. Minha autoestima começou a baixar, baixar e baixar. Em casa as brigas continuavam a cada dia que passava eu me sentia um lixo. Eu sentia uma tristeza imensurável, não gostava de estar em casa e na escola era só humilhação. Minha mãe nunca me ensinou nada sobre beleza, perfumes ou qualquer coisa que toda a garota quer aprender, eu peguei tudo no “ar”. Resolvi cuidar do meu cabelo e do meu guarda roupas também. Graças a Deus que existe a televisão!

Eu sempre apoiei minha mãe na ideia de se divorciar do meu pai, sempre via que aquilo não era vida para eles, não havia um segundo sequer de paz. Mas bem na real, minha mãe não queria trabalhar para sustentar a gente. Ela já estava “procurando” alguém para sustentá-la e isso eu nem imaginava. Ela estava sempre conversando com alguém por SMS.

Um belo dia abriu um bar na frente da nossa casa, senti que aquilo seria um baita problema. Dito e feito. Logo na inauguração meu pai bebeu tanto que foi aquele fiasco na rua, minha irmã do meio até chamou a policia. Ficamos muito envergonhadas. Semanas depois meu pai bebeu tanto que chegou em casa quebrando as coisas. Ele vinha pra cima de mim como se fosse me bater, eu sentia um pavor inexplicável. Foi uma madrugada inteira de terror psicológico, até que de manhã cedo minha mãe arrumou as malas e disse que ia embora. Eu fiquei muito feliz, mas nos planos dela estava levar somente minha irmã do meio. As duas foram para casa da minha avó, dias depois voltaram para me buscar. Infelizmente minha irmã mais velha não quis ir, ela tinha um namoradinho na época e ia morar com ele.
Eu pensei que estaria indo de encontro com a felicidade, mas não.
Semanas depois minha mãe nos contou que tinha um namorado em outra cidade e que queria visita-lo. Não nos importamos, ela disse que voltaria em uma semana e teve nosso total apoio.
Minha avó já tinha uns 80 e poucos anos, estava esclerosada e tinha Parkinson, eu amava ela, nos dávamos muito bem. Eu ajudava ela a tomar banho, fazia comida e ela me contava histórias do tempo em que ela era jovem e servia café para os soldados. Passou uma semana e liguei para minha mãe perguntando quando ela retornaria. Ela em um tom de descaso respondeu que estava aproveitando e voltaria quando achasse certo. Mas ela nunca voltou.”

“Eu senti uma sensação de abandono, de impotência, mas pensei que teria o apoio dos meus parentes. Muito pelo contrario, como minha avó estava esclerosada, quem cuidava da aposentadoria dela era uma tia minha. Vivi semanas no inferno, minhas tias falavam mal de mim e de minha irmã. Diziam que nós gastávamos o dinheiro de nossa avó, que comíamos as coisas da geladeira, coisas que somente pessoas mesquinhas falam, entre outras. Foi uma época muito difícil, inicio da adolescência, sem nenhum apoio, sem minha mãe. Eu poderia ter seguido caminhos horríveis na minha vida, mas eu sabia bem o que eu não queria ser. Não queria ser uma pessoa encostada, uma pessoa mesquinha, uma alcoólatra, uma péssima mãe, uma pessoa má que atormentasse a vida alheia. Como já haviam se passado alguns meses e minha mãe não voltou, resolvi voltar pra casa do meu pai. Esse que por sinal, depois do último episódio resolveu, ainda que um pouco tarde, parar de beber.
Dali pra cá parei para pensar sobre tudo que havia me acontecido, conversei bem com meu pai e resolvi perdoa-lo por toda uma infância atormentada. Resolvi me afastar daqueles parentes que quando eu precisei de apoio, me negaram. Meu pai saia para trabalhar eu fazia todas as tarefas da casa, limpava, cozinhava, passava para ele e pra minha irmã do meio. Com 14 anos assumi aquela posição de mãe que alguém precisava tomar.
Quando completei 15 anos fiquei o dia todo esperando uma ligação da minha mãe, eu não saia de perto do telefone. Mas não, ela nunca ligou.

Eu continuava me sentindo mal, me sentindo uma adolescente muito feia, totalmente insegura, agora mais ainda porque a sensação é que eu era mãe da minha família, e não podia fazer coisas que os outros adolescentes faziam. Eu sempre fui muito retraída, chorava por pouca coisa, se alguém brigasse comigo eu não faria nada, mas depois desses episódios eu comecei a tomar as rédeas da minha vida. Conheci umas pessoas com as quais me identifiquei muito e aquilo fez eu me sentir em casa, sentir que eu pertencia a algum grupo e isso me tornou mais forte, extrovertida e consequentemente mais adulta.”

“Meses depois eu conheci um cara, um cara mais velho que entendia de livros, cinema, arte e vida. Eu me encantei por ele, parecia que ele só queria me fazer bem e me fazer feliz. Aos pouquinhos fui me apaixonando por aquela pessoa extraordinária. Ele não sabia nada sobre mim e demorou até que eu contasse toda minha história para ele. Ele fazia eu me sentir a mulher (MULHER) mais linda, feliz e amada desse mundo. Neste homem eu fui encontrando o real significado da palavra família. Eu sabia que ele realmente gostava de mim, pois eu gostava muito dele. As palavras dele quando nos encontrávamos, o jeito que ele me tocava, me beijava era tudo magico, eu me sentia acolhida pela primeira vez na minha vida e aquilo era uma sensação que eu nunca havia experimentado. Com o passar dos anos, eu fui me tornando uma mulher mais segura, mais confiante, mais controlada e quando eu me olhava no espelho já não enxergava aquela pobre coitada.

Era como se naqueles poucos anos eu tivesse aprendido todas as regras para se viver. Regras básicas que já devíamos nascer sabendo, de como não se importar com opinião alheia, não baixar a cabeça ao passar por alguém, não diminuir meus méritos. Pra mim todo o apoio que aquele cara me dava só me fortalecia, era como se eu tivesse todas as respostas para todos os problemas do mundo. Uma pessoa ao se sentir segura, abre todas as portas da percepção e passa a enxergar o mundo como ele realmente é e não como os outros dizem ser.

Hoje, estou com 23 anos, moro bem, trabalho, faço faculdade, frequento festas, tenho inúmeros amigos e sou casada com aquele cara foda que me deu toda assistência necessária. Superei todas as expectativas da minha família a meu respeito.

Nas apostas deles (sim, fiquei sabendo mais tarde que meus tios e tias até apostaram qual rumo eu tomaria na vida) eu estaria morando e trabalhando num lugar medíocre, talvez até viciada fosse, sem expectativa nenhuma. Eu tive que lutar para conquistar tudo o que tenho hoje. E não digo somente de sair e trabalhar para conquistar o pão. Digo além disso, eu tive que lutar e muito comigo mesmo, uma parte de mim dizia que eu não era capaz, foram e são até hoje inúmeras batalhas internas.

Corri atrás de uma vaga na universidade, não fiz pré vestibular porque são caros, mas estudei em casa. Passei, estou cursando Jornalismo, nem meu pai imaginava que eu estaria morando numa cidade “grande’, me sustentando e vivendo da minha forma. Sobre minha mãe, eu perdoei ela. Ela não me procurou, na verdade fiquei sabendo que ela mantém contato com minhas tias, mandei dizer que eu a perdoei, que entendo tudo o que ela passou e que de alguma forma eu a perdoei e não carrego magoa desse tempo mesmo. Acredito que devemos passar por provações para ficarmos mais fortes, passei. Sobre a vida, não sei muita coisa, a vida é uma incógnita.

Todo dia me pego pensando “Porque eu sou eu?”, eu ainda não achei e nem acharei a resposta, mas com certeza tem um propósito para mim na terra.

Eu sempre me pego pensando as coisas da vida, eu acredito que entendo o ser humano, sempre me coloco no lugar das pessoas e as vezes até sei o que os outros estão sentindo, sempre que pergunto ouço na resposta exatamente o que eu pensava. Talvez seja energia, eu acredito muito na energia que cada pessoa tem e a força que isso tem para mudar um ambiente.

Eu ainda não sei nada sobre a vida, eu simplesmente vivo. Sem saber se vai dar certo ou não. Não me privo de nada, pois não tenho tempo para me privar das coisas que a vida tem para me oferecer. E eu quero tudo, exatamente tudo que a vida poder me dar.”