Monica Santos

Como na maioria das famílias, comigo não foi diferente. Quando terminei o ensino médio veio a pressão e a cobrança para que entrasse numa faculdade. Mas eu não sabia o que fazer, sempre tive muitas ideias: quando era criança eu queria ser veterinária, um pouco mais velha quis ser médica, logo depois percebi que isso não combinava comigo, então decidi por psicologia. O problema é que não foi uma decisão segura, foi mais algo como “eu posso fazer psicologia”. No fim não entrei em faculdade alguma e fiquei um ano em Osório trabalhando, “a espera de um milagre”. Mas milagres não vêm assim sem batalhar. Foi quando decidi que estava cansada de lá e coincidentemente um amigo disse que ia morar em Novo Hamburgo. Na hora adorei a ideia e pensei “vou morar com ele”. Com o tempo a empolgação foi diminuindo, as dúvidas surgindo, mas no fim criei coragem e fui.

Chegando em Novo Hamburgo, consegui um emprego que não era uma coisa que gostava de verdade, foi quando, folhando o jornal, vi alguma coisa sobre cursos técnicos. Tinha duas alternativas: técnico em meio ambiente e técnico em enfermagem. Como estava trabalhando à tarde, não podia fazer o técnico em meio ambiente, que era no mesmo horário. Me inscrevi no técnico em enfermagem, consegui a bolsa e comecei a fazer o curso. Nunca imaginei que pudesse curtir enfermagem, mas acabei me surpreendendo com o que encontrei, apesar de faltar mais um pouco para terminar o curso e ainda fazer o estágio, hoje eu sinto que gosto. Meu plano então é começar de fato a trabalhar na área, ver se eu realmente me apaixono por ela e aí sim fazer uma faculdade. Hoje ainda resta uma dúvida entre a ideia inicial de estudar psicologia ou seguir na enfermagem. Só o tempo poderá dizer. Mas o importante é que agora sinto que estou seguindo um rumo.

Quando eu morava em Osório estava muito cansada de lá, já não tinha mais ânimo. Havia se tornado tudo muito repetitivo, precisava viver algo novo. Morar em Novo Hamburgo pareceu uma ótima solução, cidade maior, mais pessoas, oportunidades, expectativas. Acabou que não foi tudo isso que eu esperava, no fundo me decepcionei bastante. Sinto muita falta da minha família, muita falta mesmo. Tento sempre que possível ir visitá-los. Em Novo Hamburgo não encontrei nada do que esperava, frustei muito as minhas expectativas. Claro que disso eu tiro muita coisa positiva, aprendi muito me mudando. Ganhei maturidade, responsabilidade, passei a dar valor a certas coisas, foi um grande aprendizado.
De qualquer forma, assim que terminar meu curso decidi que vou voltar para Osório. Vou me organizar, me estruturar financeiramente, tomar a decisão sobre qual faculdade cursar, aí então vou escolher uma nova cidade para viver. Nos meus planos atuais estão Porto Alegre ou Florianópolis. Ainda não sei ao certo em qual das duas, conheço Porto Alegre, sei que estarei numa cidade maior e com mais oportunidades que Novo Hamburgo e ainda assim seguirei próxima a minha família e amigos em Osório. Por outro lado vejo Florianópolis como uma cidade onde vou me identificar demais. É uma dúvida que teria ainda algum tempo para pensar a respeito.
Quase sempre morei na casa dos meus avós. Fui criada pela minha mãe e pela minha avó, não conheço meu pai, não faço ideia de quem ele seja. Elas me criaram de uma forma muito especial, sempre deram tudo e mais um pouco do que podiam oferecer para me proporcionar o melhor. Sou muito muito grata a elas por terem sido responsáveis por me transformarem na pessoa que sou hoje, superando com folga a ausência e a falta de ajuda do meu pai. Elas representam toda a base do que me tornei.
Tenho uma irmã mais velha e um irmão de 16 anos. Minha relação com eles não é lá grandes coisas. A gente conversa, a gente se fala, só que eu acho que não tem carinho. Acho que somos um pouco distantes, não temos uma boa conexão. Aí então, quando eu tinha treze anos, minha mãe engravidou novamente, dessa vez de gêmeos. Meus irmãos mais novos são tudo para mim, são as coisas que mais amo neste mundo. Eu gosto muito de estar com eles, visitar, dar carinho, abraçar, fazer tudo que irmãos fazem. Quero estar presente na vida deles sempre que eles precisarem de mim.
Ao todo são cinco as pessoas que estruturam minha vida, além da minha mãe, minha avó e meus dois irmãos mais novos, tenho uma melhor amiga que é muito importante para mim. Não tenho muita facilidade em me relacionar com as pessoas, tenho alguns amigos, muitos já passaram pela minha vida, mas tenho esta amiga que já faz parte da minha vida há seis anos. Ela mora em São Paulo, nos conhecemos pela internet. Foi muito bom ter ela aqui me visitando na única vez que passamos juntas, é alguém que confio muito, ela é minha pessoa. Já tivemos diversos altos e baixos, mas sempre voltamos a nos aproximar, independente do que tenha acontecido nós sempre estamos a disposição uma para outra. A gente tem planos. Ela está fazendo faculdade, mas assim que concluir, combinamos dela vir morar aqui comigo. Queremos ter nossa casa juntas, já falei para ela que quero morar em Porto Alegre ou Florianópolis e ela quer morar comigo. Sou muito grata por ela ter entrado na minha vida e por seguir nela, me aguentando e me aturando. Amo muito ela.
Lógico que tive outras pessoas marcantes no meu mundo, apesar de algumas delas não terem permanecido, sou muito grata por todas as coisas boas que souberam me transmitir, tudo que me ensinaram. Soube pegar um pouquinho de cada uma delas para formar minha personalidade. Ninguém foi em vão e sou muito grata a isso. Sou muito grata mesmo a tudo, acho que nada acontece por acaso e que atraímos coisas boas ou ruins com nossos pensamentos, nossas energias, com o que transmitimos. Por isso acho que sempre temos que fazer o melhor possível com o que temos a oferecer e isso reflete muito no que passamos para os outros.
Desde pequena nunca tive qualquer tipo de preconceito, nunca achei estranho ver homem beijando homem ou mulher beijando mulher. Me imaginar beijando uma mulher ou homem sempre foi algo indiferente para mim. No ensino médio tinha uma amiga que era homossexual. Eu aceitava muito numa boa, ela era minha melhor amiga, éramos muito amigas. Já eu não sabia o que era, ela dizia que eu ia gostar de mulheres e eu, ao contrário, dizia que não. Mas eu ficava com mulheres, a primeira vez que beijei uma acho que foi com quatorze anos. Isso me deixava em dúvida se gostava ou não de mulheres também, até que cheguei num ponto que parei de pensar nisso. Me relacionava com homens, de vez em quando ficava com mulheres, mas eram apenas beijos. Passado algum tempo voltei a pensar no assunto. Sabia que gostava de homens, mas comecei a me questionar se também gostava de mulheres e resolvi que precisava tirar esta dúvida.
Decidida a viver isso, veio a insegurança de como eu deveria agir quando isso acontecesse. Como eu faria aquilo? E se eu não gostasse? Foi quando eu conheci uma menina muito legal e aconteceu. Foi muito tranquilo, muito bom, todas aquelas dúvidas e aqueles medos sumiram. Eu curti e hoje me entendo como bissexual, gosto de homens e mulheres da mesma forma. Talvez no geral tenha mais facilidade em lidar com mulheres, apesar dos meus relacionamentos sérios terem sido com homens (fruto de um tempo que ainda não havia me descoberto por inteira), eu não diferencio um do outro. Tanto faz se for uma mulher ou um homem, eu serei capaz de amar da mesma forma. Claro que no sexo em si existe diferença, mas para mim no sentimento é a mesma coisa amar um homem ou uma mulher.
A minha família sempre aceitou isso muito numa boa, quando eu soube que gostava de ambos os sexos e falei para minha mãe e o resto da minha família, todos aceitaram muito bem. Eles não tem nenhum problema com isso. Claro que isso não reflete exatamente da mesma forma fora da minha família. Ouço que sou indecisa, que sou confusa, dizem que tenho que me decidir, já que não posso gostar de ambos. Levo numa boa este tipo de comentário, não brigo ou discuto porque o importante foi eu entender que gosto dos dois, saber quem sou e me aceitar assim. A opinião dos outros não vai me fazer mudar, se acham que sou indecisa ou confusa, é um problema que não diz respeito a mim. Eu não acho que sou indecisa ou confusa e não acho que isso prejudique em alguma coisa minha vida. Pra mim isso é amor e o meu amor não me obriga a ter que escolher um gênero. Eu não amo só homens, eu não amo só mulheres. Eu amo ambos e tenho capacidade de amar ambos, e vou amá-los.