Marla Francesca

Mulheres

“Eu cresci ouvindo minha mãe dizendo para eu me cuidar, eu cresci vendo minhas amigas brincando de boneca enquanto eu já tinha que usar sutiã e esconder minhas pernas pois, eu era afinal uma menina de 12 anos e não podia assumir com essa idade um corpo de menina de 16.

Sim eu fui daquelas meninas que desenvolve cedo, eu menstruei com 11 anos – sim que ‘horror’ uma criança já tinha no corpo imprimido a sensualidade de uma mulher.

Com 14 anos eu desenvolvi uma doença chamada bulimia. Uma doença que destrói o autoestima e o psicológico de qualquer pessoa. Uma doença que nega qualquer tipo de exposição fotográfica. Uma doença que envergonha e padece qualquer corpo. Eu emagreci 14kg, ou seja eu cheguei a 54kg enquanto hoje tenho 68kg e me considero muito feliz. Todas as pessoas me diziam: ‘Nossa como tu está magra’, e isso era infelizmente um sinal de vitória para mim.”

“Com 16 anos eu comecei a namorar um cara que conseguiu mudar muitas visões sobre mim mesma, ele conseguiu me mostrar que o meu corpo era lindo do jeito que fosse porque carregava a minha identidade e não porque correspondia à algum padrão estético. E eu aos poucos superei a bulimia. Mas, ainda hoje sinto sinais dessa doença que não apenas destrói o autoestima, mas também as partes mais intimas da nossa sensualidade.”

“Sensualidade, uma característica tão essencial da nossa personalidade que as pessoas insistem em agregar simplesmente ao corpo. Uma palavra que virou fetiche enquanto deveria ser apenas característica. Uma palavra que deveria elevar as pessoas e não as cobrir de roupas, vergonhas e preconceitos.

Então, no ano passado eu me deparo com o projeto Bendito Fruto. Um projeto com mulheres reais exercendo nada mais nada menos que sua sensualidade pura e sem vergonhas. Mulheres que exerciam nas fotos a sua autoconfiança, o seu amor próprio, a suas personalidades. E eu me perguntei, porque não? Porque não me libertar daquilo que sempre me martirizou e enfrentar a minha sensualidade frente à uma câmera e frente ao mundo.”

“Foi assim, que eu pude exercer um ato de libertação daquilo que sempre me fez menos do que eu sempre me senti ser. Foi então que eu percebi que a liberdade de se amar não tem preço. Foi me vendo de uma forma totalmente livre e sem medos da minha imagem que eu pude dizer pra mim mesma que a minha beleza não pertence a ninguém a não ser a mim mesma. E que se entregar ao que a natureza nos deu, ou seja, nosso corpo, é se entregar para a vida, é gritar para todos que o nosso corpo é nosso e que ninguém tem o direito de podar nossa sensualidade com preconceitos e com estereótipos.”

“Por isso, acredito que assumir a sensualidade, assumir a personalidade é assumir uma luta constante contra dogmas impostos por uma sociedade doente que insiste em enxergar na mulher um objeto de domesticação que deve cumprir regras, e possuir moldes. Por isso hoje vejo que nós mulheres devemos primeiro nos empoderarmos daquilo que é inato a nos mesmas, a nossa sexualidade, e parar de carregar as doenças que a nossa sociedade criou para falsamente nos proteger. Nós não precisamos de proteção, somos fortes o suficiente para sermos quem quisermos ser.

Deparo-me hoje com a realidade europeia onde as mulheres, independente de suas crenças, cores, tipos físicos brincam com seus filhos de topless em plena praia. Mulheres de todas as idades desfilam na beira mar com seus seios a mostra, sendo eles grandes ou pequenos, sendo eles de silicone ou de mães que amamentaram três filhos. E essas mulheres não recebem cantadas, ‘elogios’ maldosos ou deboches. São simplesmente mulheres carregando consigo o que é de seu direito e natureza. E porque então, em tantos lugares do mundo insistimos em nos esconder e em nos ajustarmos a padrões que agradem a maioria (maioria essa que inclui muito mais mulheres do que homens), porque não podemos nos amar o suficiente para sermos donas de nos mesmas. E eu digo nos, porque só cabe a nos mulheres darno-mos o direito de sermos livres.

Não adianta querermos ter independência financeira, independência social, se não damos o direito de sermos livres para expor nossa sexualidade, ela é nossa e cabe a cada uma escolher o que quer fazer com ela e não cabe a nenhuma outra o direito de julgar, a maioria de nós não sabe escolher o melhor sapato para passear no parque. Por isso, querer colocar a culpa no gênero oposto cumprindo todo o ‘checklist da mulher perfeita’ é tão eficaz quanto fazer chapinha para ir a praia, e infelizmente o mundo ta cheio dessas mulheres.”

“Então, eu digo e bato o pé, na próxima vez que for a praia entre no mar e molhe seus cabelos e deixe o vento os secar, acorde e vá a padaria com os cabelos todos desarrumados e veja quantas pessoas vão lhe olhar invejando a sua liberdade de não precisar estar arrumada para só comprar pão, coloque aquele vestido curto que você nunca usou porque era curto, esqueça o rímel (ele não faz bem para a sua pele) e durma 5 minutos a mais pela manhã. Ou, então, faça tudo ao contrário, mas faça o que você quiser e que te faz livre e dê a todas as outras o direito de também o fazer.

O mundo precisa se acostumar com a nossa autenticidade e orgulho frente às nossas pequenas imperfeições, frente às nossas preguiças, frente à nossa sexualidade, frente à nossa liberdade. Hoje eu bato no peito e digo, eu sou assim, esse é meu corpo, é meu direito lhe usufruir.”