Marina Blanguer

Meu nome é Marina Georgia Blanguer de Castro. Tenho 19 anos, sou estudante de publicidade e propaganda na PUCRS, pedagogia na UFRGS (trancada) e assistente de arte numa agência de publicidade.

Sim, minha mãe foi bem criativa ao colocar nome composto com significados como força do mar e força da terra juntos.

Eu nasci em Porto Alegre e fui criada praticamente só pela minha mãe, com a ajuda de um casal de vizinhos e dos filhos deles. Cresci tendo sempre eles ao meu lado e me ajudando com tudo.

Minha família por parte de mãe também ajudou bastante, apesar de morar longe. Eles vivem parte numa cidadezinha do interior e parte em Curitiba. Grande parte da família por parte de mãe é bem conservadora. Foram criados no interior, no meio da roça e tal, então eles tem um pensamento um pouco mais conservador das coisas e isso acaba gerando alguns conflitos quando tratamos algum tabu, como por exemplo essas fotos e esse projeto.

Pela parte do meu pai, não sei ao certo o que dizer. Eu não tenho certeza de nada sobre essa parte, na verdade. Tudo o que eu sei são suposições que eu faço baseadas em coisas que eu descubro aos poucos em conversas por aí. Só tenho certeza que meu pai não me reconheceu como filha quando minha mãe tava grávida. Com 8 anos, cansada das perguntas dos coleguinhas da escola, eu quis saber quem era meu pai, porque afinal, se todo mundo tinha um, eu também deveria ter. E minha mãe entrou na justiça contra ele pra que ele reconhecesse.

Foi bem difícil, sabe, porque isso já faz mais de 10 anos e eu nunca me senti bem em relação a essas coisas. Todos os anos no dia dos pais eu vejo crianças felizes com meus pais e não sei bem como lidar com isso. Eu achava que tinha algo de errado comigo, afinal, ele tinha uma família aparentemente tão feliz, todo mundo que conhece ele me dizia que ele era tão legal, e ele foi um pai tão bom pro meu irmão. Por que ele não podia ser comigo? O que eu tinha feito de tão errado?

Eu só não sabia que a resposta não tinha a ver comigo. Uma criança não tem capacidade de entender tantas coisas assim. E eu só descobri isso quando procurei ajuda de uma psicóloga. Eu não descobri de quem é a culpa, mas levantamos diversas possibilidades, e vi que poderiam existir diversos “culpados”, mas que nenhum deles, em nenhum momento, era eu.

Queria poder conhecer de fato, a casa dele, a vida dele. Eu queria me aproximar também da minha madrasta, porque ela parece uma pessoa muito legal. Queria saber mais da vida dele e fazer parte disso. Mas toda vez que falo algo sobre isso ele foge do assunto. Eu percebo agora que tive pessoas incríveis que fizeram papel de pai na minha vida. Mesmo morando longe, tenho tios que fizeram esse papel. Tem aquele senhor que comentei antes que era meu vizinho que sempre cuidou de mim como pai. Mas sabe, eu percebi que tá tudo bem. Não dá pra gente obrigar que gostem da gente.

Eu sei e que a minha mãe fez um papel maravilhoso e que quem perde é ele.

Se eu pudesse, aconselharia a mim mesma mais jovem a não tentar provar nada pra ninguém e não querer abraçar o mundo todo de uma vez só.

Eu fazia muito isso.

A parte mais louca é que eu não sinto mais como se eu tivesse que agradar alguém, como se eu precisasse da aprovação de alguém pra algo, sabe? Por algum tempo eu achei que eu precisasse. Eu realmente achei. Algo em mim fazia eu acreditar nisso.

Eu achei que o meu corpo precisava seguir os padrões de corpos magrinhos que eu via por aí. Eu achei também que eu tivesse que fazer duas faculdades, dois estágios e academia, ao mesmo tempo.

Eu achava que eu tinha que ter 100% do meu tempo ocupado por coisas “úteis”, coisas que, na minha criação, eu aprendi que eram úteis.

E sim, eu fiz isso por um tempo. Entrei na faculdade com 16 anos e sempre fui muito apressada pra usufruir de todas as possibilidades que a vida tivesse pra me oferecer.

Varias vezes durante a semana, antes do meio dia eu já tinha feito mais coisas do que muita gente. Mas eu não me orgulho muito disso.

Fazendo essas escolhas, eu perdi muitas coisas. Eu optei por priorizar minha vida profissional e acadêmica, fechei semestres com todas as cadeiras acima de 8,0, mas não tinha mais tempo/disposição pras pessoas ao meu redor.

Eu chegava em casa chorando, isso quando aguentava e não chorava na aula mesmo, por simplesmente estar sobrecarregada, muito estressada. Eu queria chamar a atenção de pessoas importantes pra mim e que não estão na minha vida, como por exemplo o meu pai. E queria muito que minha mãe se orgulhasse de mim, porque ela é muito rígida e é difícil agradar ela, ela não se contenta com poucas coisas, então, na minha cabeça, isso daria certo.

Achei que sendo boa em tantas coisas, eu conseguiria fazer com que essas pessoas se orgulhassem de mim. Mas não funcionou como eu pensei que fosse. Pensando tanto no que os outros, eu esqueci da minha saúde mental. E eu descobri que não dá pra agradar todo mundo. E, sinceramente, eu nem quero.

Tive um momento muito triste com o meu irmão. Ele é 4 anos mais velhos que eu e, pra mim, ele é O cara.

Ele me disse uma vez, quando éramos menores, que o significado do nome dele era “herói”, e que ele sempre estaria aqui pra me proteger, e isso ficou marcado em mim até hoje e eu levo muito isso a sério. Quando eu comecei a namorar, com 14 anos, ele foi a primeira pessoa a me dar uma camisinha e falar abertamente sobre sexualidade comigo, que na época, pra mim, era um tabu enorme.

Ele sempre foi meio sumido e desligado, mas quando eu precisava ele sempre tava por perto. No início de 2015, que ele foi pros EUA morar lá e não se despediu de mim. Nos vimos umas semanas antes de viajar e não me contou nada, eu soube pela minha ex-cunhada quando ele já tinha embarcado.

E eu não tenho palavras pra explicar como aquilo me deixou.

Ele tinha previsão de voltar no meio do ano, e não voltou, eu só sabia notícias dele através da minha ex-cunhada.

Quando ele voltou, fez festa com os amigos por dias e ia voltar pros EUA sem me ver. Quando soube disso, mandei áudio pra ele no whatsapp chorando de raiva.

Em 30 minutos ele apareceu na casa do meu namorado pra me ver e de lá pra cá, bom, as coisas tem melhorado.

Outro momento em que eu fiquei sem chão foi quando minha mãe infartou. Eu tinha 14 anos e achei que meu mundo fosse acabar.

Acabei praticamente morando na casa de uma amiga já que não pude ficar na casa do meu pai e até hoje não entendo o porquê disso.

Eu ficava visitando minha mãe no hospital sempre e teve um dia que eu precisei pedir dinheiro emprestado pra essa amiga pro ônibus e pra botar créditos no celular e assim conseguir falar com a família sobre como ela tava. Era horrível ver ela lá sem poder fazer nada e até hoje ela tem alguns problemas às vezes, decorrentes disso, eu morro de medo que o pior aconteça. Ela é muito cabeça dura, tem uns pensamentos muito conservadores e a gente vive brigando por isso, mas eu amo ela demais.

 

Eu não lidava bem com meu próprio corpo. Me achava muito gordinha.

Teve um episódio, na segunda série, em que um colega meu comprou uma sacola cheia de pirulitos e distribuiu 3 pra cada um na combi na volta do colégio, mas me deu um só, ele disse que se eu comesse mais eu ia explodir.

É complicado pra uma criança ouvir essas coisas. Eu fui achando que eu não podia ser do jeito que eu era, que tava errada, que era feio, ruim.

Isso durou até a sexta série, quando eu comecei a fazer ballet e ginástica olímpica e comer só bolacha (biscoito?) de água e sal quando me dava vontade de comer porcaria.

Eu emagreci pra caramba, fiz novos amigos, a vida de repende ficou linda.

Só que eu não mudei meu comportamento, não mudei quem eu era e foi quando percebi a hipocrisia da sociedade.

Eu gorda sou péssima. Eu magra me torno uma pessoa super legal e aceitável!!!

Depois disso eu fui ganhando curvas no corpo mais rápido do que as outras meninas. Eu fui desenvolvendo seios antes, meu quadril ficava cada vez mais largo, e eu me sentia como o patinho feio. Me chamavam de “marinão” na escola, e eu não entendia. Só fui descobrir ano retrasado que é porque meu quadril é muito largo e eu tenho “bunda relativamente grande”. Outra coisa que eu odiava.

É um inferno achar calça que passe no quadril, que não achate a bunda e que não fique sobrando na cintura e panturrilha. E eu sou totalmente desastrada, com tudo, mas especialmente com minha bunda. Eu saio dando bundada sem perceber, por exemplo em mesas, armários ou supermercados, e derrubo tudo. Isso acontece com mais frequência do que eu acharia aceitável.

Em 2014, quando eu levei um belíssimo pé na bunda, simplesmente parei de comer e perdi 10kg em pouco mais de 2 semanas. Aquele foi o pior momento de todos. Eu me achava linda, o meu corpo tava “maravilhoso”, mas eu não era eu. Foi então que eu ouvi uma frase que me chamou muito a atenção: tu não nasceu pra ser magrinha, tu é um mulherão e tu é maravilhosa assim. E é verdade.

Eu tenho estrutura óssea muito grande. Se eu for magrinha, eu fico com ossos saltados demais. Daí chegou um belo par de olhos azuis na minha vida e mudando muita coisa por aqui, inclusive o que eu pensava de mim mesma. Eu recuperei esses 10kg e um pouco mais e aprendi a gostar de mim com meu formato de corpo meio pêra, com umas gorduras aqui, umas celulites aqui, umas estrias acolá, e com um puta orgulho de tudo isso.

Eu acompanho o BenditoFruto desde o início de 2015 e desde lá eu vejo pessoas se libertando e se descobrindo, e isso é incrível.

Eu decidi fotografar pra ajudar a quebrar os tabus da sociedade. A maioria das meninas que vieram falar comigo sobre isso, super me apoiaram, já a maioria dos meninos e até mulheres mais velhas ficou “meio assim”, com alguns dizeres machistas e ainda expressando o pensamento de que o corpo feminino deve ser preservado, por ser voltado pro ato sexual ou pra agradar algum homem.

É complicado quebrar o tabu de que o corpo não se limita a isso, né?

O nú é lindo, é tão digno de admiração. As fotos do projeto são maravilhosas!

E não é como se não houvessem homens correndo com shortinho por aí e sem camisa o tempo todo. Eles não tem que se preocupar em estar mostrando demais. Então porquê eu teria?

Acho que o problema tá nas pessoas ficarem limitando, julgando e privando outras pessoas.

Se tu não acha algo legal, não faz. Li no facebook esses dias uma frase que dizia que “o jeito mais prático de se aprender sobre respeito é lembrar que as escolhas dos outros não são da sua conta.” É tão simples. E a vida fica tão mais leve quando tu para de controlar cada coisa que tu faz baseado no que os outros pensam…

Eu costumo me preocupar mais é com o que eu quando era criança pensaria de quem eu sou hoje. Se a Marininha de 8 anos de idade ia ficar orgulhosa de mim. E hoje eu sei que sim.

Depois de algumas experiências anteriores com relacionamentos abusivos, aprendi que o meu corpo é meu, e só.

Os momentos que passamos com alguém são nossos, a intimidade é nossa, mas o corpo é meu. Eu cubro ele o quanto eu quiser, como eu quiser e se eu quiser. Eu faço faculdade, nunca peguei G2, trabalho, cumpro minha pauta, e por dentro, bom, por dentro a gente é muito mais do que o que faz ou fala. E no ensaio foi como assinar um atestado de liberdade pra mim mesma.

O Maiquel e a Rê são sensacionais. Aquelas pessoas que tu fala por 5 minutos e já dá vontade de botar num potinho e levar pra vida toda. E eu tô incrivelmente feliz pelo jeito que me trataram, pelas conversas, piadas sem graça e aquele café maravilhoso. E as fotos? Bem… eu amo fotografia, eu tô sempre fotografando pessoas por aí, e eu nunca tinha sido fotografada assim. Foi um choque. Apesar de eu estar me tornando mais confiante comigo mesma, eu não pensei que eu fosse assim. Que essa fosse eu. E eu tô muito feliz por tudo isso.

Por favor, Mark Zuckemberg, libera a florzinha de gratidão infinita pra esse projeto.