Luana Moscardini

Eu achei que seria mais fácil sobre mim mesma, mas acho que a nossa história sempre é a mais difícil de ser contada. Olhar para si mesmo é bem complicado e olha que faço isso na terapia há muitos anos haha.
Bom, sendo bem clichê, vou começar pelo começo de tudo.

Eu nasci em 12 de janeiro de 1994, cresci em Viamão com a minha mãe, minha irmã e minha vó. Meus pais são separados desde que eu nasci, tanto que quando minha mãe contou que estava grávida e meu pai disse que eu não era filha dele, mas foi só eu nascer para ele morrer de amores e não ter mais dúvidas.

Morrer de amores não exatamente pois nunca fomos muito próximos já que enquanto eu morava em Viamão ele até aparecia para visitar de vez em quando, fazia mil promessas de me levar para passear, de me buscar na escola…

Nunca cumpria.

Eu lembro direitinho de um dia que ele disse que ia me buscar na escola e me levar no McDonald’s, contei para todos meus coleguinhas, e quando deu a hora de ir embora eu fui correndo super feliz para encontrar meu pai e quem estava me esperando era minha vó, como sempre. Eu tinha 6 anos, mas nunca esqueci.

Acho que o fato de não crescer com o meu pai por perto moldou um grande parte de quem eu sou hoje.
Até pouco tempo atrás eu achava que a culpa era minha de ele não ter me criado e cresci com esse sentimento. Um criança não tem a maturidade de pensar nos milhares de fatores que envolvem um relação paterna, eu só pensava que devia ter feito algo de muito errado, não devo ser tão legal assim.
Poxa, ele criou a minha irmã e muito bem por sinal, por que não eu?
Depois de muitos anos, muita terapia, minha relação com isso melhorou. Não tenho raiva, não julgo, não sei o que se passa na vida dele, cada um sabe de si.
As vezes penso em ir visitar ele e conversar, colocar tudo a limpo, na verdade é um meta para esse ano. Preciso disso para realmente ir curando certas feridas, e talvez melhorar minha relação com pessoas do sexo masculino, que desde sempre é conturbada.
Ser criada rodeada de mulheres também moldou muito minha forma de ser.
Sempre tive muito mais afinidade com mulheres, sempre tive milhares de amigas, e muito poucos amigos.
Até hoje é assim, não sei lidar com homens hahaha…
Mas amo minha família e agora com 22 anos, nessa coisa de ser meio menina, meio mulher, me inspiro muito na minha irmã e na minha mãe. Agora tenho a dimensão da força que a minha mãe sempre teve, e tudo que ela fez para nos criar e cuidar de uma casa sozinha. Temos nossas divergências, que não são poucas, mas espero um dia ser metade da mulher que ela é.
Queria muito que ela pudesse se ver como eu vejo ela, que ela se amasse como eu amo ela. Tenho certeza que ela pensa o mesmo em relação a mim, pois somos muito parecidas e acho que herdei grande parte das inseguranças dela. E por sermos tão parecidas nesse sentido tenho medo de ficar igual ela em partes, pois minha mãe não é uma pessoa de muitos amigos, desde que se separou do meu pai, 22 anos atrás, nunca teve outro relacionamento. Um dos meus maiores medos é seguir isso.
Nossa, isso me assusta muito!
Acho que por isso eu sempre fui meio desesperada para ter um namorado…

…Namorado mesmo eu só tive um, e foi tipo uma meta conquistada, sempre quis ter um namorado!

Na listinha que eu fazia todo ano novo de coisas que queria, namorado ficava no topo.
Acho que inconscientemente era uma forma de afirmação.
O namoro foi complicado desde o inicio, eu tinha muitas nóias, as que mais pesavam era que eu achava que a gente não tinha nada a ver e que nossa relação tinha prazo de validade e outra coisa era que achava que quando ele visse quem eu realmente era, ele iria me deixar.

Eu sempre pensava isso quando tava com alguém. E o que quero dizer com “quem eu realmente era”, é minha escuridão, um lado muito privado.

Desde nova enfrento muitos problemas, já tive anorexia e desde então minha relação com a comida nunca mais foi a mesma, tive problemas de auto mutilação (que orgulhosamente estão há mais de 2 anos controlados), e o maior de todos os problemas é a minha depressão, algo com o que eu lido há 7 anos, a trancos e barrancos.

Me sinto meio que a caixa de Pandora, que quando aberta só tem caos…

Mas uma das coisas boas do meu relacionamento foi que eu consegui me abrir, ele viu todo esse meu lado e mesmo assim ficou comigo.

Isso significou o mundo pra mim.

Como namorado ele foi muito bom, como ex ele foi péssimo.

Quando terminamos, eu desabei, eu tive a maior crise de depressão da minha vida.
Era uma sensação de perda muito grande, e não era nem por ele, era por mim.
Parecia que tinha perdido o meu valor como pessoa, porque a pessoa que me achava mais foda tinha me deixado.

Eu achei que ia morrer, minha mãe achou que eu ia morrer. Eu me perdi. Eu só chorava. Fiquei doente, fiquei de cama.

Não saía. Desliguei o telefone, sumi do mundo.
E no meio de tudo isso ele nunca me mandou uma msg pra saber se eu tava viva, e ainda contou pra todo mundo dos meus problemas.

Mas esse momento me transformou numa nova pessoa!

Tem uma frase numa música que eu gosto muito (Clean – Taylor Swift) que diz:
quando eu estava me afogando foi quando eu finalmente consegui respirar.

Ela resume tudo. Eu finalmente respirei. Eu passei a dar muito mais valor as pessoas a minha volta, a minha vida, as minhas conquistas.
Minhas amigas foram uma parte muito importante nesse caminho, e hoje eu vejo que o segredo é estar rodeada de pessoas maravilhosas, é ter essa base. Amo minhas amigas de uma forma que não cabe em mim. E eu aprendi, que tudo passa, um dia de cada vez, e principalmente, meu valor não depende de mais ninguém…

E a minha depressão é algo com o que eu ainda estou aprendendo a lidar, apesar de já conviver com isso há 7 anos.

É um estigma ainda na nossa sociedade, as pessoas não entendem, e quem tem acaba sentindo vergonha ou culpa.
Minha mãe diz que não é pra eu ficar falando sobre isso com as pessoas, que elas podem achar que eu sou louca, mas pra mim é importante falar.

Por que eu sei do sentimento de solidão, eu sei como é parecer que ninguém entende, então se quando eu falar, um pessoa que seja se sinta menos sozinha nessa luta, vai ter valido a pena.
É uma doença que eu vou ter que enfrentar pela vida toda, eu tenho esse desequilíbrio químico.

Eu vou ter que tomar remédio pra sempre, mas tudo bem.

Tive momentos bem ruins, sem perspectiva nenhuma, acordar ou não acordar no outro dia, não fazia diferença.
Eu simplesmente não me sentia feliz, com nada.
Eu não sentia nada. Ou sentia muita raiva, muita raiva mesmo.
Hoje em dia ainda tenho dificuldades com algumas coisas, cada dia é um passo dado.
Tenho problemas em lidar com muita pressão, ou de começar algo. Levantar e enfrentar o dia dá medo, mas cada vez que eu enfrento me sinto muito bem. Então sei lá, para qualquer pessoa por aí que esteja passando por isso: tu não está sozinho, mesmo!

E tirando tudo isso, todo esse lado mais complicado, que quem me olha de longe nunca imaginaria. Eu tenho uma vida bem boa. Sou muito grata por tudo o que eu tenho. Tenho mil sonhos, quero muito viajar o mundo conhecer outras os culturas, o diferente sempre fascinou. Quero um dia morar numa casa, ter alguém do me lado para dividir a vida, e muitos cachorros.

Me sinto muito sortuda de poder fazer uma faculdade, e principalmente, fazer algo que eu amo, que é a Moda.
Muitos acham que é uma coisa fútil, que só envolve roupa e tal. Mas para mim é muito mais do que isso, é questão de poder construir tua identidade, é uma forma muito poderosa de passar uma mensagem sem dizer nada.
E cada dia mais está surgindo gente foda, fazendo coisas fodas. Meu curso me deixa muito encantada. Antes meu sonho era trabalhar em uma grande marca, tipo Zara, ou Renner, mas com o tempo descobri que essas marcas utilizam uma forma de trabalho exploratória na maioria das vezes, que fere os direitos humanos e trabalhistas, além de explorar a natureza.
Então hoje em dia o que mais me empolga é achar pessoas que façam moda de uma forma justa, e tem muita gente bacana por aí! Pretendo criar um site ou algo assim, para falar sobre marcas e pessoas que estão fazendo a diferença no meio. E principalmente quero fazer essa diferença também.

Fazer esse ensaio significou mais um passo na minha evolução, eu fiz para mim, por mim.
É pra quando a insegurança bater, para quando eu achar que eu não sou boa suficiente ou que eu tenho que ficar com o cara babaca porque é a única opção que resta, eu me lembrar desse dia, me lembrar do quanto bonita e especial eu sou. Que eu sou livre e dona do de mim, que ninguém pode mudar isso.
E estou num momento muito feliz da minha vida, um momento de descobrimento, terminar o meu namoro acabou sendo uma das melhores coisas que me aconteceram. Eu consegui um estágio na minha área, o que pra mim é uma conquista enorme, fiquei muito feliz, me sinto muito feliz com a chance, porque é meio que meu primeiro trabalho de verdade.
Eu tenho os melhores amigos do amigos do mundo, me divirto muito com eles, conheci muitas pessoas novas nessa nova fase.
Comecei o ano viajando pra Santa Catarina, pro Rio de Janeiro, pra Punta del Este, sério nunca viajei tanto em tão pouco tempo.
E foi muito legal, me senti muito feliz e plena, foi uma ótima forma de começar o ano.
É um dia de cada vez, mas com certeza estou na minha melhor fase.
No final do ano passado tatuei a palavra Livre, é assim que eu me sinto, e é assim que quero me sentir sempre.