Karen Gomes

Mulheres

Meu nome é Karen… …na verdade é Ana Karen.
Eu sou de Manaus, tenho 11 irmãos….comissária de bordo e maquiadora profissional

E porque comissária de bordo, como foi isso? – Bom, meu pai faleceu quando eu tinha 15 anos e com a pensão eu conseguia pagar parte da faculdade de direito. Meu sonho mesmo era ser auditora fiscal, como ele foi. Eu na realidade nunca sonhei em voar como profissão, como a maior parte das pessoas sonha.
Mas quando eu fiz 21 anos, a pensão acabou e eu precisava de alguma coisa que desse mais dinheiro que o meu trabalho num escritório de contabilidade pra poder pagar a faculdade. A família do meu ex namorado me ajudou muito nessa época. A minha ex sogra foi um anjo na minha vida. Ela me disse que ajudaria a pagar um curso em outra área pra que eu pudesse ganhar mais.
Eu pensei no curso de comissária, assim eu poderia voar por uma companhia local, voos curtos em pequenos períodos e ganharia o suficiente pra concluir meus estudos sem problemas.
Quando fui chamada pra seleção eu rodei nos testes. Então apareceu a opção de fazer a seleção numa outra cia aérea, em São Paulo.
De novo a família do meu ex interviu e me emprestou dinheiro pra que eu pudesse ir pra São Paulo fazer essa seleção.
Acontece que eu falhei nessa seleção também. E já sem muita esperança eu tive que voltar pra Manaus.

No voo de volta eu peguei uma outra cia aérea pra voltar. Nela um comissário achou que eu fosse parte da tripulação, acabamos conversando e ele me disse que eu levava jeito, que encaminhasse meu curriculo pra ele tentar nessa nova empresa.

Voltando pra Manaus, aquela companhia aérea local me chamou de novo, pra mais um teste….
eu fui…


Só que de novo, eu falhei no teste.
Então, num dia 29 de Janeiro, me ligaram de São Paulo, era aquela companhia aérea pra qual eu deixei o currículo com o comissário. Me disseram que tinham uma seleção no dia seguinte, que eu teria que estar lá as 8 da manhã.

Eu não tinha nem 5 reais no bolso. Nao tinha onde ficar, como comer… eu não tinha sequer uma mala pra levar as coisas.
Comecei a chorar e acho que ela ficou tocada com a situação, me deixou esperando uns minutos e voltou dizendo que tinha conseguido reagendar a minha seleção pro dia 3 de Fevereiro. Esse era o dia do aniversario do meu Pai. Eu encarei isso como um sinal e resolvi arriscar tudo.

Então eu fui atras de uma mala emprestada com a minha mãe, pedi um adiantamento do mês seguinte pro meu chefe, expliquei a situação. Liguei pra um irmão meu de Salvador, ele tinha alguns conhecidos em São Paulo, e ele conseguiu um lugar pra que eu pudesse ficar durante os testes.

Eu ia todos os dias pro aeroporto pedir carona em avião cargueiro. Um dia eu dei sorte, conheci um cara e ele me perguntou “Quanto tu tem aí?” e eu disse “20 reais, mas é tudo que eu tenho”.
Então eu embarquei num avião cargueiro e a gente decolou. Fizemos varias escalas, passamos até por Brasília e eu não tinha nem agua nem comida, foram mais de 20 horas até conseguir chegar em São Paulo. Chegando lá fui pra casa desse amigo do meu irmão, pra poder começar os testes de seleção pro emprego.
Passei na primeira fase, logo em seguida passei na segunda, e pra terceira eu não recebi nenhum contato.
Passaram uma semana, duas, três… nada acontecia.
Quando estava pra completar um mês, meu chefe me ligando de Manaus, eu já sem ter um centavo pra comer e me sentindo totalmente derrotada e inconveniente na casa de estranhos, meu irmão me liga, as 10 da manhã e me dá um ultimato.
“Karen, já faz quase um mês, não adianta mais insistir. Se até meio-dia não te ligarem, eu dou um jeito de comprar sua passagem de volta pra Manaus…

… Ao meio dia me ligaram dizendo “Karen, seja bem vinda ao time, você agora faz parte da nossa empresa”.
Eu fiquei emocionada, foi incrível. Finalmente tinha dado certo.
Então eu fui pra uma pensão, dividi um kitnete minúscula sem nada dentro, eu dormia num colchonete e vivi por semanas a base de miojo e leite. Durante o treinamento eu não recebia muito dinheiro. Então só conseguia comer algo diferente quando alguém me convidava pra almoçar. Mas depois do treinamento eu comecei a trabalhar, conseguia mandar até dinheiro pra minha mãe. Consegui alugar um apartamento, com um quarto só meu, uma cama…

E estava vivendo minha vida quando conheci um gaúcho no Orkut. (Nota do fotógrafo: esse gaúcho que ela conheceu foi meu amigo de infância. Mundo pequeno)
Começamos a namorar, depois de um tempo eu fiquei gravida. Decidimos que era melhor eu vir pra Porto Alegre e fomos morar juntos.
Eu amo Porto Alegre, não pretendo mais sair daqui.
Algum tempo depois nos separamos. E passado algum tempo sozinha, eu comecei um namoro.
Mas não foi bom pra mim.
Eu estava deprimida com o termino do casamento. E esse namorado novo era extremamente, abusivo, controlador, manipulador. Ele criticava minha aparência, detonou minha auto estima.
Me falava que eu tinha que perder peso, fazer lipo, que só ficava aceitável com a cara cheia de maquiagem e me levou a fazer uma cirurgia pra por uma prótese de silicone maior…

…Então eu fiz a cirurgia pra por mais silicone..
e esse foi o resultado…. A marca vai ficar pra sempre em mim.
Hoje eu superei, me aceito, me amo, eu sou linda por ser como sou, quem eu sou e achei alguém que consegue ver em mim a mesma beleza que eu vejo e é isso que importa