Giovana Grando

Mulheres

“O tempo da minha vida é medido em quilos. Os quilos de ontem, os quilos de agora, os quilos de amanha, os quilos de daqui a 1 mês.
Quilos, peso, gordura, tamanho… praticamente é isso que passa na minha cabeça desde os meus 10 anos. E cansa, sabe? Desgasta. Me deixa triste.
Qualquer dia desses vou dizer pra algum desconhecido ‘prazer meu nome é gordura e meu sobrenome é em excesso’.
Minha vida se resume a peso e amores mal resolvidos, e isso é uma chatice.
O pior de tudo é: eu não me enxergo do tamanho que eu sou. Me vejo 5x maior. As vezes acho que vou trancar na catraca do ônibus de tão ‘grande’ que eu sou. E isso é DOENTIO.
Se eu enumerar as coisas que deixei de fazer por me preocupar com o peso nos últimos 16 anos vou ter uma lista interminável, desde não comer algo que eu amo à não fazer tatuagem no braço porque ele tá gordo demais. De passar calor no verão por me achar gorda demais e pensar que ninguém é obrigado a ver minhas pernas e braços gordos expostos por um short, saia e uma blusa mais fresca.”

“Ironia é chegar ao peso desejado, com o IMC desejado, com a % desejada, com o tamanho das roupas tão desejado, mas não conseguir curtir e aproveitar nenhum dos 3 anos que eu fiquei assim por continuar achando que eu era gorda e que precisava perder peso ainda. (???)
O mais hipócrita é que eu fico pasma com as pessoas que são aficionadas pelo peso, mas e eu? Sinceramente mais paranóica, neurótica e chata (muito chata) que eu, ainda não conheci.
É triste admitir, mas eu nunca me gostei, nunca me amei, nunca me curti. Sempre vi defeito em mim, sempre vi beleza em to-das as pessoas menos em mim. Sempre falo que eu preciso me esforçar 10x mais do que minhas amigas pra ficar bonita, porque todas elas tem uma beleza natural e eu sou a versão feminina do corcunda de notre dame misturada com a fiona.
Até que eu me dei conta de tanta bobagem e vi o quão de saco cheio eu to dessa frescura toda e quero me ver livre disso, desse medo, dessa raiva de mim mesma. Decidi mudar, de fora pra dentro, de dentro pra fora.”

“Meu namoro terminou de uma forma bem insensível.

E foi aí que eu vi que me perdi, mais do que nunca.
Foram quase 3,5 anos juntos, e praticamente 2 anos que eu vivi muito mais pra ele do que pra mim, do que pra nós. Me esqueci, me deixei de lado, engordei de novo, todo o peso que eu suei pra perder aos 19 anos. Inclusive foi um dos motivos que fez ele, aos poucos, se afastar de mim.
Depois de uma semana naquela sofrência chata e irritante eu decidi que eu tinha de fazer alguma coisa, que eu precisava voltar a ser quem eu era antes dele. Decidi então que ia fazer as fotos com o Bendito Fruto e demorei 4 meses pra ter coragem, mas antes disso eu tinha sonhos pra realizar.
Um desses sonhos mais sonhador era de cortar meu cabelo curto do jeito que sempre quis. Fiz isso e nossa, como eu ME AMEI assim. Doei esse cabelo que tava imenso e carregava meu passado. Doei sangue também, porque era uma vontade muito grande mas que nunca dava. Me doei um pouco pras pessoas. Adotei mais um gato. Me reaproximei de velhas amizades que faziam muita falta pra mim. Me afastei de algumas amizades que eu achava que eram verdadeiras mas que eram mais destrutivas do que uma bomba. Arrumei minha tatuagem nas costas, coisa que eu queria fazer há uns 5 anos.”

“Depois de fazer todos esses bens pra mim mesma comecei a refletir muito sobre mim, sobre minha vida, sobre meus amigos, sobre minhas escolhas, sobre tudo que me faz ser a Giovana e sabe o que é mais engraçado?
Consegui perceber (sem ser pedante e egocêntrica) o quanto eu sou incrível e tenho a acrescentar às pessoas.
Ainda falta MUITO pra eu conseguir me amar plenamente e me sentir a mulher mais linda do mundo (pra mim mesma, sem ostentar) mas eu to nesse caminho, to me esforçando, todos os dias. Não quero mais me privar de nada nessa vida, quero conseguir fazer tudo que eu tenho desejo sem medo de julgamentos.
Sempre que eu acordo pensando no meu peso, desvio o pensamento pra alguma outra coisa, vou amar um pouco cada um dos meus bichos de estimação, faço qualquer coisa que ajude a abstrair isso.
Ainda quero sim perder peso, mas a prioridade agora é de que eu tenha a melhor e maior paz da vida: o amor próprio.
Essa é minha nova fase: quero me amar, independente de tudo. Tô me redescobrindo, me reencontrando.

E um dos primeiros passos já foi dado: esse foi o primeiro aniversario da minha vida em que eu fui pra piscina de biquíni com alguns dos meus amigos em sentir medo de que eles fossem me julgar. “