Gabriela Soster

 

 

Meu nome é Gabriela, tenho 20 anos – por mais que pareça que tenho 15 – e tenho sérios problemas em falar sobre mim. Ou falo pouco, ou falo muito. Mas bom, vamos lá.

Entre ano passado e esse ano eu tenho enfrentado inúmeras descobertas sobre mim, boas e ruins. Estou em uma fase de grande transição da minha vida, e tenho certeza que todas essas descobertas – decepcionantes ou não – devem ser feitas pra que eu evolua e siga em frente pra buscar o meu melhor.  Uma delas, e creio que foi a mais importante, foi que há uns dois anos mais ou menos, eu tinha três melhores amigas. Duas delas já eram minhas amigas há anos, e nós nos dávamos super bem, como em qualquer outra amizade. E nessa época, minha rotina era extremamente corrida: eu trabalhava, estudava e fazia ballet. E isso tomava todo o meu tempo. A partir dessa época, e sem perceber, eu fui me tornando escrava das minhas atividades e comecei a viver de uma forma que eu não gostava nem um pouco. Eu fazia tanta coisa que, na minha cabeça, não sobrava tempo pra mim, nem pra ninguém. E isso infelizmente afetou minha vida social, e essa amizade. Uma dessas amigas estava passando por um momento muito difícil na vida dela, e eu se quer tinha consciência de entender isso. Eu não raciocinava mais. Era tudo no automático. Foi aí que eu me dei mal. Todas nós nos afastamos aos poucos, e nada fazia sentido pra mim. Até que nunca mais nos falamos e a dúvida se tornou a maior angústia da face da Terra.

Desde então, nunca mais fiz laços com ninguém. Não saí mais, não fiz mais amizades e me isolei.

Em 2015 iniciei outro curso, o de Técnico em Edificações, que eu cursava pela manhã enquanto ainda trabalhava, fazia outro curso de Desenho Arquitetônico, e ballet. Nesse ano eu p-i-r-e-i. Fiquei doida mesmo. Os sintomas de ansiedade foram aparecendo, e aí veio a Síndrome do Pânico pra ajudar.

Eu decidi procurar a terapia, que faço até hoje.

As coisas também começam a mudar quando a gente se aceita e procura ajuda. E o que me ajudou muito foi eu ter conhecido uma pessoa muito especial no curso técnico: meu namorado. Ele sem dúvida foi uma das pessoas que mais me ajudou nessa fase da minha vida, e que ainda me ajuda. Ele é o ser humano mais calmo da vida, e isso com certeza é muito útil na nossa relação, afinal, eu sou a ligadona nos 220v, e ele é o tranquilão.

Minha mãe é outra pessoa que me ajuda pra caramba, ela se tornou minha melhor amiga depois de eu ter me afastado de tudo e de todos.

Minha irmã, que tem apenas 10 anos, é muito inteligente e sabe exatamente o que fazer pra me deixar bem nos momentos difíceis. Enfim, esse ano, e não faz pouco tempo, eu decidi dar uma basta nessa dúvida em relação as minhas amigas e procurei elas pra saber o que tinha acontecido.

Foi aí que eu levei a maior surra da vida! Descobri que a culpa tinha sido toda minha e por motivos que eu nem imaginava que existissem. Apesar do tapa na cara, eu agradeci MUITO, muito mesmo, por ter tido a oportunidade de enxergar meu erro. Agradeço todos os dias por isso e por todas as outras descobertas que fiz sobre mim. Por mais doloroso que seja ficar frente a frente com os nossos erros, a nossa melhor recompensa é poder melhorar. É ter a oportunidade de concertar todos eles – ou a maioria – e lutar todos os dias contra essa outra metade que eu ainda não me harmonizei. Diante de isso tudo, o meu estado emocional foi piorando e piorando e minhas crises aumentaram… eu cheguei a ter crises em lugares que eu me sentia muito bem, inclusive dentro de casa. Mas logo que isso tudo iniciou, eu tomei uma das decisões mais importantes em relação a minha situação, que foi a de não tomar remédios.

Optei pelo caminho mais difícil, mas que mais faz sentido pra mim. Quero muito melhorar, mas quero melhorar de verdade! E não dopada 24 horas por dia. É um caminho bastante perigoso, porque tenho que me conhecer um pouco mais a cada dia, controlar minhas crises com a minha própria vontade, e respirar fundo. Continuei fazendo tratamento com a psicóloga, tomo floral, e ando de bicicleta. Eu amo.

Quando tudo piorou, decidí sair do ballet, e me demitir. Já não dava mais pra mim. Nem meu corpo nem minha cabeça aguentavam mais. Foi quando um sonho que eu tinha há muito tempo e que ficou guardadinho, veio a tona novamente. Ter um brechó.  Foi quando nasceu a Bendita Traça.

Eu sempre amei brechós, a maioria das minhas roupas são de brechós, e eu gosto bastante de moda. Não que eu entenda muito, mas gosto. E então comecei meu brechó online. Posso dizer que minha ideia deu super certo, pois é o que me sustenta hoje, já que saí do meu emprego. Trabalhar em casa é infinitamente melhor, e ter uma rotina flexível era tudo o que eu queria.

A Bendita Traça me trouxe muita coisa boa! Atualmente, continuo fazendo meu curso técnico (termino este ano), estou administrando o brechó e faço yoga. E sim, aprender a respirar faz toda diferença. Entrar pra yoga foi umas das melhores coisas que já fiz, mesmo tendo muuita saudade do ballet – mas pretendo voltar. Uma coisa de cada vez.

O desejo de querer sempre abraçar o mundo é bom, mas traz com ele muitas consequências ruins. Ainda quero ser arquiteta, bailarina, ter meu brechó, fazer yoga e pedalar, mas tudo a seu tempo. Afinal, eu posso ser o que eu quiser, onde eu quiser!

E sobre esse dia, essas fotos e essas duas pessoas maravilhosas que estão por trás desse projeto: perdi 99 medos de uma vez só. E eu sei que posso perder mais quantos eu quiser.