Francine Franceschi

Mulheres

“Eu tenho 23 anos agora.
Quando tinha 2, minha mãe começou a notar que eu caia muito, que meu olho era diferente, lacrimejava demais… E resolveu me levar no medico.
Não deu em nada. Ninguém sabia dizer nada.

Até que mais ou menos com 8 anos quando eu comecei a ter dores de cabeça muito fortes. Não conseguia mais olhar pra luz direta.
Minha mãe me dizia que meu olho parecia o céu, porque tinha muitos pontos brancos.

Fui pro hospital e consegui um transplante de córnea.

E ficou bom. Por uns 6 meses…”

“Meu olho ficou bom por uns 6 meses, eu enxergava e tudo mais.
Mas então eu precisei fazer quimioterapia porque poderia ter rejeição, ou até mesmo porque poderia dar câncer no olho.

Eu mal ia nas escola porque eu tinha varias deformidades causadas pela medicação mas sabe que eu nem dava bola, porque eu me preocupava em estar viva e enxergar.

Fiz 7 cirurgias pra corrigir pequenas coisas. Tinha que receber as lições em casa, minhas professoras enviavam pela minha irmã.
A quimio tomava 3 dias na minha semana e eu ainda precisava ir no médico com muita freqüência.
Até lembro que eu tinha vontade de ser enfermeira mas não podia por que tinha muitas alergias…”

“Logo depois da ultima cirurgia, meu olho estava branco, muito branco.
As pessoas me olhavam na rua, me paravam pra comentar.
Era bastante frustrante. Mas agora parece que elas estão mais acostumadas. Já não me sinto mais tão mal quanto a isso.”

“A minha família é bem católica. Eu fiz parte de grupos de jovens, fui coroinha, mas eu nunca fui muito de religiões.
Principalmente porque eu sentia, e via muita coisa. Muita coisa diferente do que a religião me ensinava.
E por não acreditar em Deus nessa forma concreta, eu comecei a ir num centro espirita.
E que resultado isso teve pra ti?
Eu me sinto mais leve como pessoa. Me encontrei muito em mim mesma. Ter contato com tudo isso me fez ter mais fé em mim.”

“Quando eu era mais nova, meu cabelo era vermelho, eu tinha piercing, e tudo mais.
E porque tu não tem mais esse visual?
Porque me convenceram de que tava errado, que não servia.
Se eu pudesse ainda teria meu cabelo colorido, piercings e tatuagens…
Acho que a gente precisa perder o padrão. Que as pessoas não podem deixar de fazer algo porque vai ser julgado.
Eu acho que a gente precisa viver mais e viver pra gente. Não pelos outros.”