Fernanda Varella

Mulheres

– Eu me criei na praia, só vim pra capital quando passei na faculdade de dança. De lá pra cá foram 6 anos e eu ainda to encantada com tudo. Não conseguiria mais voltar a morar no litoral. Desde que cheguei, conheci gente maravilhosa e tanta coisa que eu nem imaginava que existisse.

– Mas tu sente falta de alguma coisa da praia?

– Muita! Principalmente falta de poder jogar bola no meio da rua, numa rua de paralelepípedo, de subir numa árvore e espetar o dedo num cactus, de brincar de pega-pega em pátios sem muros.

“Hoje eu sou bailarina de um grupo e há pouco tempo eu fui chamada num concurso público na praia, mas eu recusei e não voltei, meus pais ficaram preocupados porque acharam que depois de me formar eu fosse voltar pra casa.
Eu penso: se eu não dançar agora que sou nova, quando eu vou dançar?”.

– E como a dança entrou na tua vida?

– Ela veio por acaso. Eu não planejava ser dançarina ou professora de dança. Eu queria mesmo ser arqueóloga ou Astronauta. Com 7 anos eu tinha um problema nas pernas, elas eram viradas pra dentro. Um ortopedista me sugeriu ballet, porque ajudaria a recuperar. Então fui e comecei a gostar muito daquilo. Até que um dia me convidaram pra dar aulas numa creche. Pô, eu tinha 15 anos e ganharia dinheiro, óbvio que topei. Mas sempre dizendo que não seria professora, nunca quis dar aulas. Até o ano seguinte…

– E o que aconteceu no ano seguinte?

– Minhas alunas se apresentaram pela primeira vez. E eu fiquei tão feliz, tão apaixonada, tão completa que percebi que era meu destino, ser professora. Era um prazer, uma felicidade tão intensas que eu me senti quase egoísta em ficar tao feliz.

“Acredito que se como professor de dança, tu ensina apenas dança, então isso é um desperdício. É preciso ir além e ensinar a ser humano. Respeito, amor e ética. Trabalho como educadora social em escolas públicas e tenho alunos carentes, da periferia e eu posso influenciar a vida deles. Quando encerrou o ano passado e eu perguntei o que eles tinham aprendido, eu esperava que respondessem sobre algum passo. E um deles disse “a gente aprendeu a cuidar um do outro”. E óbvio que ali eu chorei, porque ali todo meu esforço compensou, valeu a pena”.

“Não se pode ter medo de fazer novas descobertas. Quando eu terminei meu namoro, depois de 7 anos, eu notei que eu não precisava de mais ninguém além de mim mesma. No começo achei que não conseguiria viver sem meu namorado e percebi que de repente eu não sabia quem eu era, porque a gente cresceu e evoluiu junto e eu não sabia o que eu queria. Então me descobri no meio disso. Comecei a dizer mais o que eu pensava e tomar iniciativa pra mais coisas. Até então só seguia um modelo do que eu achava que as pessoas esperavam de mim, agora eu sigo meus instintos”.