Elis Brizolla

Me chamo Elisângela, tenho 37 anos e nasci na cidade de Palmeira das Missões. Foi lá que passei parte da minha infância, mas por fim minha mãe acabou vendendo nossa casa e viemos para Porto Alegre. Nossa mudança ocorreu devido a separação de minha mãe com o pai dos meus irmãos, e por quê? Ele bebia demais e batia nela, e consequentemente em mim e em meus irmãos. São oito no total. Quando cheguei aqui eu era apenas uma menina, tinha em torno de uns nove anos, mas o que eu não esperava era que teria que desde muito cedo me mostrar muito forte, afinal eu era a segunda mais velha dentre eles. Já aqui, minha mãe tinha uma conhecida que nos deixou morar no porão de sua casa. Naquela época, ela ainda estava grávida do meu irmão mais novo, o nono filho dela. Muitas vezes não tínhamos nem o que comer, então, sem muita escolha, eu e meus irmãos, aos sábados, íamos para a feira a cata de frutas que os feirantes descartavam, para termos o que comer. Não foi uma infância fácil e, como meus irmãos eram mais novos do que eu, não podiam trabalhar, então desde cedo comecei a minha jornada de trabalho pra ajudar minha mãe a criar os meus irmãos…Trabalhei inicialmente em casa de famílias cuidando de idosos e crianças, como morava no trabalho só os via uma vez por mês. E foi assim que vivi minha infância e também parte da minha adolescência.
E com toda essa responsabilidade desde muito cedo e com muito amor dentro de mim, só aflorou ainda mais meu sonho de ser mãe, eu queria muito isso, era uma vontade muito grande…
Aos 18 anos saí definitivamente de casa, conheci uma pessoa, com a qual mantive um relacionamento que durou doze anos. Em 2003 eu engravidei e nossa! Eu estava tão feliz que poderia dizer que a felicidade não cabia dentro de mim, sai da consulta radiante e cheia de planos, estava com três meses de gravidez, já havia escolhido até o nome, seria PEDRO, quase não acreditava que era verdade… porém a minha felicidade não durou muito. Depois de fazer alguns exames, pra minha surpresa ou desespero, ele me informou que eu teria que tirar o bebê. Não consegui acreditar! Procurei outros médicos, mas o diagnóstico foi o mesmo. E o pior, eu não tinha muito tempo pra pensar, precisava aceitar e fazer logo a cirurgia, antes que fosse tarde demais, mas na minha cabeça eu não conseguia entender, não queria aceitar que, conforme informado, o bebê não estava no lugar correto e não tinha como sobreviver ali. E eu, bem, eu também corria riscos. A partir daí foi tudo muito rápido, quando percebi já estava internada no hospital, submetida a vários exames, um deles a ecografia, onde pude ouvir os batimentos cardíacos do meu bebê, e foi aí que desabei de vez, eu não queria de forma alguma tirá-lo, mas não eu não tinha escolha. Imediatamente fui para o bloco cirúrgico e não vi mais nada. Quando acordei já estava na sala de recuperação, com muita dor e um curativo enorme na barriga que jamais me deixaria esquecer tudo o que aconteceu…

Foi muito difícil lidar com esse sentimento, fiquei meses tentando entender e aceitar, noites e noites me torturando, sentindo um vazio, uma tristeza sem fim. Depois de seis meses eu comecei a reagir, passei a seguir em frente com minha vida, projetar novos planos e enfim aceitar o que aconteceu.

Tempos depois, eu consegui superar tudo o que aconteceu. Em 2008 então, eu descobri que estava grávida novamente, e dessa vez o medo me atingiu em cheio e minha memória reviveu tudo o que já havia acontecido. Mas, como anteriormente, não tive muito tempo pra pensar e fazer planos, porque sim estava revivendo tudo de novo,  fui internada as pressas,e desta vez parecia ser ainda pior, estava com hemorragia interna pelos mesmos motivos anteriores. Não sabia direito o que estava acontecendo, mas sabia que estava muito assustada e  confusa. Passei por outra cirurgia e só após pude começar a  entender, o doutor relatou que o bebê estava nas trompas e tinha se rompido dentro de mim, eu estava correndo risco de vida e podia não ter sobrevivido. Nesse momento, me senti incapaz, só tentei entender porque isso estava acontecendo comigo novamente… Fiquei mais de dez dias no hospital, tomando muitos remédios, com o uso de morfina constante, pois a dor que eu sentia era quase insuportável. Foram cinco cirurgias e a pior consequência foi que eu não poderia mais ter filhos.
Quando enfim voltei pra casa, me isolei do mundo e meu relacionamento, é claro, não resistiu a tudo isso. Após alguns anos nos separamos.
Em 2014 descobri que estava com depressão profunda, isso foi quase o meu fim…

Depressão, o que dizer sobre essa doença?? É cinza, sem sabor, sem cor, sem brilho, sem vida… É isso que se sente ou não se sente. Nada faz sentido, nada tem valor, nada é bonito, nada importa. A sensação da morte está muito presente, é algo muito real, eu sabia que estava viva mas me sentia completamente morta. Tudo aquilo que lembra a morte se torna familiar e passa a ser mais desejado do que qualquer outra coisa. Dores terríveis, sensações de fim, uma tristeza inexplicável, uma apatia total às coisas da vida, não se tem vontade de fazer absolutamente nada. Só de morrer, um pedido que o mundo te deixe em paz. Um sofrimento sem razão de ser, com feridas profundas. E de onde que vem? Não sei explicar. Não tem explicação. Tudo é tristeza, tudo é um vazio. Um poço sem fundo… Uma DOR NA ALMA!!!
Foram dois anos tomando muitos remédios tarja preta, pois sentia dores de todas as formas, tendo todas as reações possíveis. O mais difícil foi ter que trabalhar no meio disso tudo, tirar forças pra sair da cama. Nesse período eu só conseguia trabalhar dopada, devido as fortes medicações, pensei que nunca mais seria a mesma pessoa e, no fim, realmente eu não sou…

Com todo sofrimento e vontade de desistir da minha vida, eu tentei suicídio mais de uma vez e, em uma dessas tentativas, fiquei desacordada por dois dias. Descobri, então, uma força que nem eu mesma sabia que ainda tinha e consegui superar essa doença terrível.
 
Nesse meio tempo, algumas pessoas se afastaram porque eu estava com depressão, mas outras entraram e acabei conhecendo algumas pessoas que se tornaram muito importantes para mim. Ganhei novos e verdadeiros amigos, encontrei almas boas e isso me deu força pra superar todo sofrimento que passei, me fez ver que ainda posso acreditar no ser humano, que ainda existem pessoas boas nesse mundo tão corrompido em que vivemos.
 
Hoje posso dizer que estou mais madura, mais segura, arriscaria dizer até que muito mais feliz comigo mesma. Não me importo mais com rótulos e não sigo mais etiquetas, vivo conforme as minhas próprias regras. As dificuldades me fizeram enxergar o mundo de outra forma.
 
Algumas cicatrizes internas e outras externas permanecerão e, querendo ou não, são elas que contam a minha história. Alguns destes sentimentos eu expresso através das tatuagens que foram traçadas no percurso do meu corpo, contando um pouco dessa história.
 
No fim, descobri parte da minha essência, me encontrei e sei que ainda vou me reencontrar outras vezes, porque tenho sede de viver novas descobertas, de superar as adversidades, de me entregar de corpo e alma às coisas boas da vida e essas coisas boas incluem certamente a minha própria LIBERDADE!!!