Dudu Freitas

Homens

“Quando a gente pára e respira e vive as pequenas coisas da vida. Isso é estar vivo. É isso que eu tenho buscado…”

Sou conhecido como Dudu Freitas, sou escrevente autorizado e tenho 28 anos (ainda com dificuldade de aceitação sobre a idade) hehe.

Fui criado pelos meus avós paternos, desde os meus dois anos de idade. Fui para no colo deles quando meus pais se separaram e minha mãe bravamente “abriu mão de mim” e me deixou ser criado pelos meus avós, sabendo que naquele lar eu teria o amor e educação necessários para me tornar um homem de bem. E ela estava certa, minha família sempre foi muito franca comigo sobre tudo que aconteceu e o porque estava ali e desde pequeno pensei o quão foda deve ter sido para minha mãe, ter que abdicar do meu convívio, pensando em mim. Dos meus dois anos até os oito aproximadamente, ela sumiu da minha vida e dos meus familiares, vez eu outra ligava pra saber se eu estava bem, mas ela estava se reestruturando e não se sentia confortável para aproximação, até que um belo dia, ela resolveu aparecer e se reaproximar de nós, casada novamente e esperando seu segundo filho, já reestruturada, soubemos que ela batalhou muito durante esse sumiço, ela é uma vendedor nata e vendendo imas de geladeira de porta em porta ela começava uma nova família, da qual comecei a ter mais contato. Hoje sou o mais velho de cinco irmãos, que nos dias atuais mantemos pouco contato mas amo-os muito.

Meu pai estava sempre a minha volta, afinal, morava com os pais dele, mas pouco interferiu na minha educação, ele era da noite, tinha problemas com alcoolismo, foi servidor público duas vezes e acabou desperdiçando por conta disto, mas sempre esteve na luta, trabalhado, afinal, tinha um vicio pra sustentar. Mas não me queixo dele, na medida do possível me dava presentes e me levava pra passear… Adora ir ao circo com ele essa é uma das memórias mais viva que tenho junto a ele, por ser filho único dele e sabendo que eu er criado por seus pais acredito que a forma de compensação dele era financeira (quando tinha).

Já os meus avós, esses sim eu tiro o chapéu e aplaudo em pé, meus pais biológicos que me perdoem mas eles sabem o quão grato eu sou e sempre serei a eles. Depois de terem criado seis filhos com muito, mas muito sacrifício, aos quase 50 anos aceitaram mais um desafio: criar mais um filho! Reza a lenda que uma cigana certa vez, leu a mão do meu avô e disse que ele teria sete filhos, já sem esperanças e para surpresas de todos, eu cheguei! fui criado com toda a educação e amor que poderia receber, não tive muitas regalias não, meu avô sempre foi muito turrão, ele nunca me bateu mas bastava um olhar lançado que parecia uma chinelada. Minha amada avó sempre me protegeu e me mimou de certa forma… Eu vivia pendurado na barra da saia dela e adorava! Não fui aqueles moleques arteiros, preferia fazer o certo e não ver meu avô gritando e minha avó se incomodando.

Aos 16 anos comecei a trabalhar “oficialmente” com ela, no seu atelier ali no centro. Minha família sempre valorizou os estudos mas também nunca teve condições de bancar a faculdade de ninguém, então o “normal” era tu trabalhar, ter teu dinheiro e se conseguir ir pra faculdade.

Um ano depois de estar trabalhando com minha avó comecei a aceitar que olhava diferente para os meninos…”

“Um ano depois de estar trabalhando com minha avó comecei a aceitar que olhava diferente para os meninos, digo aceitar porque desde pequeno tive alguns amiguinhos e fazíamos umas brincadeiras diferentes… Mas como eu era o garoto tímido e comportado, criado pelos avós e sem irmãos da mesma idade, nunca questionei ou me abri pra alguém na infância ou adolescência sobre “o que é a homossexualidade?!”. Minha família teve muitos casais de lésbicas, que eram amigas da família e sempre trataram isso com naturalidade, mas homens não então nem referencias eu tinha, nem dentro de casa nem na rua.

Aos 17 anos através do chat terra (sempre ele) conheci um garoto que me levaria a uma boate… A refugiu’s… E quando conheci aquele lugar, vi aquelas pessoas alegres e felizes dançando eu disse pra mim: Esse é o meu mundo, esse é o meu lugar e desde então tudo mudou e foi incrível (a maior parte do tempo)! O romance com o boy não foi muito longe, mas conheci pessoas maravilhosas na época e outras (que incrivelmente) levo comigo até hoje e que são meus melhores amigos!

Nunca fiz uma reunião familiar, bati as tacinhas e disse: Gente, sou gay! Quem sabe, sabe… Quem não sabe desconfia! Quem pergunta eu respondo…

Contei primeiro pra minha prima, minha amiga e parceira até hoje, pra decidirmos o que fazer e como lançar a informação, afinal nunca tivemos um caso desses na família, e agora?! Decidimos que o melhor era contar para minha avó, que mesmo com certa idade, me ajudaria ou me daria um jeito. E foi na praça de alimentação do antigo grazziotin, numa tarde tranquila de trabalho que chamei ela pra conversar… No fundo ela sempre soube que eu era diferente, choramos muito aquele dia, a conversa foi linda e ela só pedia que eu me cuidasse com esses casos de maldade, que eu continuasse com a minha boa índole porque ela iria continuar me amando independentemente dos meus gostos. Aquilo provou mais uma vez que ela era muito foda! Depois me arrependi de ter escolhido um local público devido os baldes de lágrimas derramados mas em minha defesa escolhi aquele local porque se acaso ela quisesse me bater ou algo assim, eu poderia sair correndo… hehehe… Grande tolice a minha!

Optamos por não falar pro meu avô, que até hoje nunca me perguntou nada, mas no fundo ele deve saber e sempre me tratou com amor e respeito, inclusive os meninos que já frequentaram nossa casa, as vezes ele até pergunta por um ou outro e questiona quando vão aparecer. smile emoticon

Minha mãe, sempre foi muito histérica, mas éramos muito amigos e muito próximos nessa minha época de aceitação, como na família dela tenho um tio travesti, achei que seria mais fácil, mas não… Foi um árduo começo… Tirei o final de semana pra ficar com ela e discretamente falar sobre meus gostos e preferências… Primeiro ela não queria aceitar, chorava, chorava, chorava… Como já havia passado pela experiência, fui mais contido e também tinha que conter ela que não parava de chorar nunca! Foram três dias de lágrimas inesgotáveis! A todo momento ela vinha: “Mas e se… Te agredirem, maltratarem… E se, eu virasse menina… E se, eu pegasse uma doença séria (todas são)…” Enfim… Com muita conversa e explicações de que me cuidaria, não tinha objetivo de virar menina… Eu só gostava de meninos, não sei ainda bem o por que, até hoje… Mas é amor, desejo, tesão. Simplesmente é assim! Superada essa fase, no meu aniversário de 19 anos ela foi até pra boate comigo, conheceu meus amigos e ficou maravilhada!

Com meu pai foi diferente, depois de superar o alcoolismo ele virou evangélico, casou e constituiu nova família, ainda sou o filho único dele e ele SEMPRE foi muito machista, mas Deus castiga! Num certo almoço de domingo lá em casa ele entrou no meu quarto e viu na cabeceira da minha cama o livro espirita O preço de ser diferente, da Zibia Gasparetto. Por ser um evangélico mais fanático na época, ele me chamou para uma conversa de portas fechadas no quarto e ali disse o que queria e também o que não devia. Foi uma discussão muito forte, ele defendia a religião dele e alegava que “ser assim” não era de Deus e por conta disso eu seria castigado. Eu por outro lado só conseguia chorar e dizer que se não era de Deus, por qual motivo esse mesmo Deus colocaria esses sentimentos dento de mim, sentimentos que não eram ruins nem feios, era simplesmente AMOR! Só que por pessoas do mesmo sexo que o meu! A resposta era: Isso é coisa do diabo, eu tinha que me tratar, me casar e constituir família. A cada discordância eu via a raiva crescer nos olhos dele, os nervos aflorados a ira estava dominando o corpo dele e eu tenho certeza que se ele não fosse da igreja ele ia me dar uma amaçada de pau, que eu jamais esqueceria. Mas não aconteceu fisicamente, quando vi que isso poderia acontecer, eu disse que se ele encostasse um dedo em mim, aquela casa ia registrar o maior escândalo já visto e nós nunca mais iriamos nos falar, por fim, ele me disse que preferia ter um filho presidiário do que um filho viado. Depois dessa informação eu respirei fundo e disse que infelizmente eu não poderia atender os requisitos dele para continuar sendo filho dele, logo, quando ele mudasse de opinião poderíamos voltar a nos falar e me retirei. Ficamos um bom tempo sem se falar e ao retornarmos o contato nenhuma palavra foi mencionada sobre o ocorrido, sobre minhas preferências ou sobre minha constituição de família e está sendo assim até hoje!”

“Nunca tive um relacionamento longo.
Desde a adolescência eu tive complexos com meu corpo por ser muito magro e não me achar tão atraente e ainda as poucas vezes que me apaixonei foram frustradas, por conta disso fechei meu coração pra novas aventuras e emoções e transferi tudo isso pra minha simpatia!

Por ter sido criado sozinho, sempre tive ótimos amigos… Sou um pouco casca dura no inicio, primeiros contatos e tal, mas depois que eu pego confiança e intimidade… Fudeu!

Tenho a consciência e espero não viver de simpatia pra sempre, agora aos poucos, estou começando a abrir o coração e desenvolver um pouco mais o lado sexual na minha vida.

Sempre digo pros outros que temos que colocar a cara no sol e aproveitar as oportunidades mas é muito fácil falar, difícil é fazer…

Eu sempre escutava muito as pessoas, mas não conseguia me abrir. Até porque eu tenho a teoria de que ninguém resolveria meus problemas, então, não adiantava falar deles!

Pouco tempo atrás passei por um surtinho de crise de identidade, existência, vida, tudo…

Foi através de terapia, família e amigos que eu consegui retomar o rumo.
Parece que sofri uma atualizaçãozinha de software e hoje consigo olhar e ver o quão bom foi, no fim das contas!

Nunca acreditei em depressão, até que ela bateu em mim e eu percebi que nossa mente tem um grande poder de ilusão e criações inimagináveis e se não mantiver o controle, a gente pode simplesmente surtar!

Eu retia em mim muitos problemas que nem sequer eram meus e acabava me prejudicando, hoje seleciono só o que vai me acrescentar de bom e não me estresso mais.
Passou… Pronto, acabou, bola pra frente e vamos pra próxima! Não gero mais tanta expectativa sobre as coisas, deixo elas acontecerem naturalmente… O que tiver de ser, vai ser!”

“Nos dias de hoje, parece que o mundo gay é “um pouco podre”, infelizmente vivemos de muitas aparências, muitas competiçõeszinhas, intriguinhas e coisinhas. As vezes chega ser muito patético!

As pessoas parecem que esqueceram o sentido da vida, o nexo, o amor, o respeito!
Óbvio que tu não vai amar a todos e a tudo mas custa se esforçar pra pelo menos respeitar?
Sempre vamos encontrar opiniões e gostos divergentes dos nossos mas creio que temos que aprender a ouvir e compreender um pouco mais o próximo! Será que nossa opinião e pensamento sempre terá que prevalecer a do outro?! Na real o mundo inteiro está assim, seja gay ou hétero (sem colocar o mundo em rótulos, mas para níveis de comparação)”

“Eu era terrível!
Falava alto com as pessoas, gritava, xingava e era dono da razão sempre….

Até que começar a perceber que as coisas não funcionavam daquele jeito!
Estávamos todos no mesmo patamar, somos pessoas, seres humanos!
Concluí que tinha criado mais uma barreira por viver numa sociedade preconceituosa, eu estava sofrendo duas vezes: por ser negro e gay.

Resolvi corresponder a grosseria das pessoas com educação e gentileza. Não foi uma mudança fácil.
Depois de muita insistência e resistência as coisas começam a fluir de uma forma mais leve e suave to me sentindo muito bem com isso.

Não vou mentir e dizer que sou sempre assim, tenho meus momentos de estresse, raiva, ira igual todo mundo.
A diferença foi ter percebido que eu não tenho o direito de descontar em ninguém.”