Cris Garavello

Mulheres

Na minha casa tinha um livro de história. Lembro de ter uns 2 anos e ser fissurada pela capa. Sempre gostei de ler sobre múmias e essas coisas. Eu ainda sonho em ir pra Europa, visitar todos aqueles museus.

Morghana diz: Nas minhas apresentações do colégio as ‘mães normais’ batiam palma, enquanto a minha cantava junto, assobiava. Quando meus amigos iam pra minha casa, gostavam mais dela do que de mim.

“Eu sou apaixonada por bonecas. Quando era mais nova eu fui me oferecer pra trabalhar na Estrela pra poder ter mais bonecas. Até desenvolvi uma técnica de colocar cabelo nelas e descobri que se elas ficassem no sol elas amoleciam e ficava mais fácil. Como eu atuava de freelancer, podia andar com elas pra todo lado”.

“Minhas irmãs eram voluntárias no projeto Rondon e eu estava sempre com elas. Um dia elas estavam numa campanha de vacinação, eu tinha uns 5 anos e no meio daquela confusão enquanto eu via médicos e enfermeiras, comecei a prestar atenção no trabalho das enfermeiras. Ali eu me apaixonei. Na primeira série eu até desfilei de enfermeira!

Eu cresci com exemplos da minha família sendo carinhosa com todo mundo e acabei sendo igual. Principalmente no meu trabalho. Lembro de num dos primeiros casos que eu cuidei. Antônio, um senhor negro com as pernas amputadas.
Nós passávamos pelos quartos e eu prestava muita atenção a ele, sempre quieto, sozinho e notava que ele nunca comia. A comida ficava lá, e era jogada fora, porque ele nem mexia nela. Até o dia em que eu fiquei encarregada de cuidar ele e entendi o por quê.

Quando eu fui cuidar dele, ele já estava bem debilitado, fraco. E, enquanto eu tentava conversar com ele, eu notava que ele apenas mexia os olhos. Foi quando eu resolvi dar comida pra ele na boca, e ele comeu. Então eu entendi, que ele não se alimentava porque ele não conseguia. Naquele momento eu saí correndo dali e fui chorar”.

*Nota do Fotógrafo: Às vésperas de fazer 40 anos, a Cris – mãe da Morghana que já fotografou aqui com a gente – decidiu fazer um ensaio também. Uma pessoa tão incrível, cheia de energia e histórias que não caberiam em um mês de publicações.