Cacciele Spindola

Mulheres

 

“Quando era criança lembro que pegava o microfone do aparelho de karaokê do meu pai e ficava entrevistando minhas bonecas como se fosse um programa de televisão.

No banheiro da minha casa dava para os vizinhos ouvirem tudo que era falado, então eu levava minhas bonecas para lá e brincava que era um programa de rádio.
Lembro em um dia das crianças que pedi um gravador de presente (na época aquele que gravava com fita ainda), e quando ganhei era só o que eu queria brincar. Também adorava mexer na máquina de escrever do meu pai, mesmo sem a permissão dele.
Atualmente, que estou quase me formando em jornalismo e trabalho com rádio, vejo como desde a infância eu inconscientemente já sabia o que queria da vida. Escrever sempre foi a minha paixão. Sou muito feliz no curso que escolhi, realmente gosto do que eu faço, mesmo com o pouco reconhecimento da profissão e todos os problemas que ela possui. É complicado ter que ouvir frequentemente piadinhas sobre o jornalismo, acham que sabem sobre a profissão, mas na verdade muita gente fala só bobagem sobre ela. As pessoas não entendem que sem jornalistas não tem informação, existem apenas boatos. Com tanto conteúdo sendo produzido por aí, cada vez mais, a sociedade necessita de um “filtro” e de fontes confiáveis para se informarem. O papel do jornalista é realmente muito importante, espero que um dia as pessoas percebam mais isso. Uma vez me disseram que o jornalismo é uma cachaça e ele realmente é. Mas, é dessa cachaça que quero viver embriagada até o resto dos meus dias.”

“Quando tinha 14 anos tive que fazer uma cirurgia na coluna, pois estava com um grau alto de escoliose. Coloquei 20 pinos e felizmente tudo deu muito certo. Minha cirurgia foi realmente um sucesso, tive uma rápida recuperação e os resultados foram excelentes. Meu caso foi até utilizado como exemplo pelo meu médico em alguns congressos de medicina.
Apesar de ter sido uma cirurgia bastante séria e ter me causado bastante dor depois da operação, realmente fiquei feliz com o resultado, pois estava curada e minha coluna, segundo o médico, agora é mais forte e reta do que a de uma pessoa comum. Porém, como consequência da cirurgia fiquei com uma cicatriz nas costas.
As pessoas quando olham para minha cicatriz sempre me perguntam o que foi que aconteceu e se não tem como tirá-la. Mas quem disse que eu quero tirar? Eu realmente gosto dela e não a tiraria por nada neste mundo. É uma marca que faz parte da minha história, foi como uma vitória para mim e ainda por cima acho ela linda. O padrão de beleza é não ter cicatrizes? To nem aí para ele.”

“No ano passado fui em uma festa à fantasia com uma amiga. Estava meio que com receio de ir com um short tão curto para a festa (total bobagem minha), então coloquei uma calça comprida. Desde quando cheguei na festa, um rapaz muito alto e “parrudo” ficou no meu pé. Toda vez que passava por ele, sempre ouvia alguma piadinha nojenta. Mas, como infelizmente isso é “normal” para nós mulheres em balada ou até mesmo na rua, fiquei quieta, pois não queria me “incomodar” com a situação, queria apenas curtir a festa.
Em um certo momento, deixei minha amiga sentada e fui buscar uma cerveja. Novamente tive que passar por aquele rapaz nojento, só que dessa vez, quando eu estava de costas, ele enfiou a mão na minha bunda. Foi ali que eu vi que não poderia mais ficar quieta, que eu tinha SIM que me incomodar e exigir respeito, pois realmente me senti humilhada e invadida ao extremo naquele momento. Virei para o rapaz e comecei a xingá-lo pelo seu ato, até que ele, sem nem prestar atenção em uma palavra que eu disse, me falou: “o que que é? Tu é uma puta”. Quando ele disse isso, eu não consegui mais me controlar e dei um tapa no meio da cara dele. Só que para minha surpresa ele reagiu e me deu dois socos na testa, no segundo eu caí no chão. As pessoas da festa e o rapaz que estava organizando o evento (que por sorte estava por perto na hora que fui agredida) chamaram os seguranças, que simplesmente conversaram com o rapaz e disseram para ele não fazer mais isso. SIM, ele me agrediu na frente de todos e ainda ia ficar impune. Só que as pessoas viram o que estavam acontecendo, começaram a se revoltar e pediram para tirá-lo da festa. Quando os seguranças cercaram ele, o rapaz, que era o dobro do meu tamanho, foi em minha direção tentando me agredir novamente, mas dessa vez foi pego antes de me machucar. O rapaz ou monstro, não sei bem até hoje o que era aquele ser, saiu arrastado pelos seguranças e me jurando de morte. Ninguém o conhecia na festa, os amigos dele saíram logo em seguida para levá-lo para casa. Mesmo assim, fui na delegacia registrar o boletim de ocorrência, caso ele resolvesse cumprir a promessa, vai saber né? Mas, quando cheguei na delegacia e vi tantas mulheres machucadas, sangrando e chorando naquela hora da madrugada, aquilo me doeu muito. Senti que a minha história era “insignificante” perto de tantas mulheres que sofrem violência todos os dias.”

“Confesso que sou meio durona, não sei demonstrar meus sentimentos muito bem em relação a pessoas. Estou sempre tentando melhorar isso, mas não consigo, pois tenho medo de parecer “melosa” ou coisa do gênero. Também não sou muito boa em fazer demonstrações públicas de afeto, eu gosto das pessoas do meu jeito, que é um pouco reservado. Porém, quando eu digo que amo e quando elogio, pode ter certeza que é totalmente verdadeiro.
Sou quase uma contradição, pois ao mesmo tempo que tenho meu lado extrovertido, gosto muito de me comunicar e não tenho problema em interagir com as pessoas, quando é para falar sobre o coração, eu me fecho. Não sou de sentir saudades das coisas do passado, sinto falta apenas de pessoas que passaram pela minha vida ou das que se afastaram da minha convivência com o tempo. Me adapto muito rápido às mudanças e não sou de ficar me lamentando. Para mim o que passou, passou. Foram as fases da minha vida que me fizeram ser o que sou, por isso sempre prefiro seguir em frente sem olhar para trás, acho que isso faz com que eu seja mais feliz. O apego ao passado só nos puxa para trás, nos impede de construir o novo e de pensar no presente.”

“Quando posei a primeira vez para O Bendito Fruto era bem no início do projeto. Fiz o ensaio em fevereiro e foi veiculado em abril. Eu nunca tinha feito um ensaio sensual e o Maiquel ainda não era tão experiente quanto é hoje nessa área. Sempre soube que o fruteiro era um grande profissional e não hesitei quando ele me convidou para fotografar. Não tínhamos ideia da repercussão que ia dar e confesso que na época eu me assustei um pouco com a chuva de críticas e elogios sobre o meu ensaio. Mas, as críticas não me afetaram nenhum pouco, pois me apaixonei pelo trabalho e com todo o projeto em si.
O Bendito Fruto cresceu significativamente e tenho orgulho de ter acompanhado todo o processo de perto e também por fazer parte disso de alguma forma. Só tenho a agradecer por tudo que o projeto me proporcionou, porque eu tive outro olhar em relação a mim depois de ter sido fotografada e também surgiram algumas oportunidades maravilhosas como consequência disso. Ainda ouço comentários sobre meu ensaio, a maioria são elogios. As críticas que não são construtivas não me incomodam mais, acho que faz parte termos pessoas com a cabeça mais atrasada na nossa sociedade e apenas sinto pena delas por isso.
Apenas acho engraçado que quando são pessoas famosas que fazem um ensaio todo mundo acha lindo. Agora quando somos nós pessoas “anônimas” que trabalhamos, estudamos, alguns têm filhos e se dividem em tripla jornada, nós não podemos mostrar quem somos? Não podemos mostrar nossa beleza “por ser vulgar”? Estamos nos expondo demais fazendo isso? Os ensaios são pura delicadeza e ainda contam histórias sobre cada um que foi fotografado. A maldade está na cabeça das pessoas que não sabem diferenciar o que é sensual e o que é vulgar. Não sabem diferenciar o que é compartilhar histórias sobre a vida do “querer aparecer”. Esses pensamentos pequenos não são nada perto da grandeza do O Bendito Fruto. Que o projeto continue só aumentando e trazendo coisas boas e amor para vida de todos.”