Ashley Soares

Minha infância não foi lá das mais agradáveis, minha relação com a minha mãe sempre foi difícil, passei por algumas dificuldades desde pequena e eu sempre me mantive firme, sempre tive meus avós paternos ao meu lado, duas pessoas maravilhosas que sempre fizeram de tudo por mim, e assim me ajudaram a passar pelas dificuldades.

Desde pequena eu fui molestada pelo meu padrasto. Quando eu tinha 8 anos, a minha irmã caçula nasceu, então as coisas só pioraram, eu fui agredida durante anos e as tentativas foram aumentando e se tornando mais frequentes.
Com 13 anos eu saí de casa e nunca mais olhei pra trás.
O passado me fez crescer muito, foram anos de tratamento psicológico, medicamentos, uso de drogas, e tentativas de suicídio. Devido a tais acontecimentos me tornei uma pessoa fechada, mas também uma pessoa forte, decidida e capaz de ultrapassar qualquer obstáculo que a vida coloque no meu caminho.

O momento mais triste da minha vida foi em junho de 2008, quando minha mãe estava passando uns dias fora de casa e deixou minha irmã e eu aos cuidados do meu padrasto.

Numa das noites, após um dia inteiro cuidando da casa e dela, eu vi a luz da minha alma se apagar de tanto medo.
Enquanto ele me molestava, ficava falando que daquela noite eu não passaria, que ele ia fazer o que queria comigo e depois daria um fim em tudo para eu não contar nada à ninguém.
Nesse momento eu fiquei tão pálida que não conseguia mais sentir o sangue pulsar dentro de mim, foi a noite mais horrível de toda a minha vida, eu tremia, chorava, gritava e ninguém foi capaz de me acudir, mas antes que ele fizesse o que tanto queria, eu fugi, morrendo de medo, sozinha durante a noite, eu só queria chegar nos meus avós.
Depois disso eu nunca mais voltei.

Tenho medo da solidão e não sou muito de me arrepender das coisas. Mas se tem algo que eu corrigiria, são os erros que cometi durante a adolescência!
Teria contido meus surtos de raiva para não causar mau às pessoas que amo. Procuro sempre me redimir com as pessoas que errei. Hoje consigo contar mais os meus sentimentos, procuro lidar com as situações com mais calma.

Dia 5/12/15 foi um dia muito importante pra mim, tenho certeza que nada que possa acontecer daqui pra frente vai ser capaz de apagar da minha mente tudo que aconteceu naquela noite, as sensações incríveis que eu tive. Nessa noite eu me entreguei pela primeira vez a uma pessoa que eu não tive receio algum, não tive medo, não tremi, não relembrei, eu deixei de conduzir e me permiti ser conduzida, por uma mulher incrível, foi a noite mais linda que eu já tive na minha vida.

Meu maior medo, hoje, é perder o homem mais amoroso, gentil, batalhador, fiel e carinhoso que eu já conheci, meu avô.
Ele foi pai e mãe, me cuidou desde pequena, sempre me deu tudo do bom e do melhor, tudo que estava ao seu alcance ele sempre me proporcionou.
Não tem muito como lutar contra a vida, mas por ele já ter uma certa idade e estar com alguns problemas sérios de saúde eu tenho permanecido mais com ele, lhe dando mais atenção, aproveitando melhor o tempo que ainda tenho ao seu lado.