Amanda Acauan

Mulheres

“(Falar sobre isso aqui talvez tenha sido a coisa mais difícil que já fiz, porque torna tudo mais visível, real e doloroso). A separação dos meus pais quando eu tinha 7 anos foi, com certeza, o momento mais cinza da minha vida.

É claro que depois disso já vivi perdas terríveis, passei por situações que quase me fizeram desistir de tudo, sobrevivi a sentimentos, emoções e experiências que mais pareciam pesadelos reais, vivi dias em que a única vontade era pedir para alguém encontrar o meu coração, consertar e tentar fazer ele caber de volta no peito.

Mas, de longe, ter vivenciado essa separação – do que foi – me deixou buracos enormes que só comecei a perceber aos 21 anos.

Me assombra lembrar que acordava de madrugada e ouvia a minha mãe chorando sozinha, assim como lembro dos olhos vermelhos do meu pai, e também do cheiro de bebida quando ele me abraçava.
Até hoje me culpo por ter estado no meio de tudo isso, me culpo pelas brigas, me culpo pelo que não deu certo para eles.

O primeiro presente que ganhei dele foi no meu aniversário de 20 anos. Sinto que ele tem vergonha da nossa história, da nossa relação como pai-filha, e até hoje me pesa o olhar dele sobre o meu.
Tudo entre a gente sempre foi em pedaços, sempre machucou. Sinto que a postura arisca, assustada e defensiva que assumi com o tempo é o que a Amanda de 7 anos implora da Amanda de 23…

E não acho que isso seja saudável, é só uma realidade que não me sinto forte ou fria o suficiente para mudar.

Eu tive muita força quando tive que ter, segurei minha mãe no colo e assisti em silêncio ela se vestir de coragens e nunca deixar que nada faltasse para mim. Ela sonhou os meus sonhos e todas as minhas conquistas se tornaram possíveis porque no fundo tinha as mãos dela. Mas, se pudesse voltar no tempo, eu teria pedido para ela me segurar no colo durante a separação e os anos que se seguiram, porque no meio do caos eu acabei vivendo o contrário. Não me arrependo de ter sido forte por nós duas, mas um pedaço de mim ficou para trás e às vezes esse pedaço de mim me faz muita falta.
Com o tempo coisas pequeninhas foram morrendo dentro de mim, ainda criança, e eu não era capaz de perceber, pela minha idade, pela minha dor, pela minha inocência, pelo meu medo. Eu fui construindo uma barreira auto-protetora que me escondia de mim mesma, das minhas maiores verdades, das minhas feridas, da minha nudez humana.
Hoje, com 23 anos, finalmente eu entendi que posso ter fraquezas, que posso guardar a armadura que criei há 16 anos atrás e assumir que já não sou tão forte. Entendi que reconhecer as minhas cicatrizes, no que tenho de mais interno, é encarar um monstro no espelho que me concretiza e me transforma na melhor versão de mim todos os dias.”

“Eu não sei dizer quem é a Amanda, sempre me bastou saber o que ela não quer ser. Acho que intensidade e movimento me definem.
Não me suporto pela metade, e isso é o que mais gosto em mim mesma: eu me entrego de olhos abertos, eu aceito tudo o que se dispõe a atravessar a minha alma. Eu sou a minha própria queda no abismo.

É por isso que sou tão corporal, visceral, tão à flor da pele. Porque eu me permito sentir. Eu não desvio o olhar quando algo me faz sentir viva, e é isso o que me torna extremamente expressiva, porque não sei disfarçar essa intensidade toda, e nunca quis. A minha facilidade está em transbordar.

Eu sou amante da dança, dos corpos em movimento, de tudo o que é corpóreo, real e orgânico. O meu corpo é a minha alma.
Desde que aprendi a andar invento coreografias espontâneas pela casa de maneira incansável.
Fiz 8 anos e minha mãe disse: “ai, Amanda, você é uma artista, preciso fazer alguma coisa em relação a isso”, e foi quando ela decidiu me colocar no ballet. Por questões financeiras tive que ficar um tempo sem a dança coletiva, mas seguia com as minhas montagens contemporâneas em cima da cama, no banho, na cozinha e onde quer que eu estivesse. Nesse meio tempo entrei para o vôlei e me encantei pelo esporte. Treinei durante 7 anos e guardo até hoje todas as minhas medalhas com muito carinho, mas nunca escondi a minha saudade de dançar em algum coletivo.
Com 16 anos voltei. Foi quando comecei a estudar dança contemporânea e jazz, e o meu coração disparou. Com 17 anos concorri e ganhei uma bolsa integral para estudar dança contemporânea e expressão corporal com a bailarina Thais Petzhold, quem só fortaleceu a vontade que eu tinha de me redescobrir nos meus movimentos.
Por causa dos estudos acadêmicos a dança ficou mais silenciosa no meu dia a dia, mas sempre me beliscando com muita delicadeza.
Quando estava terminando o mestrado desvendei os mistérios do circo e, atualmente, me divirto com as cores e as texturas do tecido acrobático, enquanto começo a tirar do papel projetos pessoais de dança contemporânea. Se não for corpo ardendo eu nego, porque o que não é pele é inverdade.
– Uma parte de mim que grita e que constrói um dos momentos mais incríveis da minha vida é o fato de ter morado fora do Brasil.
Antes de terminar o último semestre da faculdade, com 20 anos, eu já morava sozinha em Porto Alegre e alguma coisa me puxava para ainda mais longe. Foi quando decidi buscar cursos de mestrado em música no exterior e acabei encontrando no litoral norte português o meu maior desafio individual. O que eu vivi é maior que eu.”

“Saí de casa, do país, do continente. Na minha cabeça a obrigação do mundo era ser maior que o meu quarto. Deixei tudo que tinha para trás, com a certeza mais certa de todas de que quando voltasse não encontraria nada como deixei. E isso me assustava muito, mas não me impedia. Uma mala de 31kg, uma mochila mais pesada do que eu e a reserva de um hostel do outro lado do mundo. Não sabia o que esperar de um mestrado no exterior. Onde moraria era um mistério, se teria amigos, como eles seriam, se aguentaria dois anos longe de casa, ou se pediria para voltar ao descer do avião. Saí do Brasil com uma mala cheia de casacos e incertezas, e na mochila todos os sonhos do mundo de que eu poderia transformar tudo em novo de novo. E transformei. Conheci pessoas do mundo inteiro, fiz amigos para o resto da vida, construí uma nova família e amores. Aprendi que, na verdade, o mundo é muito menor do que o meu quarto. Cresci 10 anos em 11 meses, amei 10 anos em 11 meses, abracei muito e com uma força que nem sabia que tinha. Senti falta de casa, senti falta de tudo. Me fiz forte, escorreguei, me guardei, me desfiz, me construí, me recriei. Mudei… Mudei e não voltei jamais como a Amanda que foi. Sou outra. Em muito mais pedaços, mas que me fazem muito mais inteira. Aprendi que o mundo é minúsculo, mas que as pessoas são gigantes. É tanto sentimento, é tanta entrega, é tanto sonho, é tanta saudade, tanto querer, tanta víscera.Voltei outra, com uma mala a mais e carregando 50 kg de certezas, de realizações, de amores, de amigos, de mundo, de conhecimento, de humildade, de lugares, de lições, de cicatrizes, de culturas, de sabores, de mim mesma. Desde que isso tudo começou a acontecer, fiz do mundo o meu lugar, e reparti meu coração em vários pedaços distribuídos em muitos lugares e muitas pessoas. Isso faz de mim muito maior. Me faz ser mais de mim mesma. A saudade é a minha constante lembrança.”

“Apesar desse mundo corporal que existe ao meu redor, nem sempre esse foi um assunto natural para mim. Com 6 anos eu sofri a primeira invasão sexual masculina na minha vida, com o dono de um bar que ficava na esquina da minha casa, onde meu pai praticamente morava. Um dia ele quis conversar comigo e me convidou para sentar no colo dele, eu não me senti confortável na hora e me mantive em pé. Ele colocou as mãos por baixo da minha bermuda e desse jeito me puxou para perto dele, falando no meu ouvido que eu era “tão pequena e tão linda, que os meus olhos verdes deixavam ele sem saber o que fazer”. Eu saí correndo do lugar, chorando e tremendo, e passei a fazer um caminho duas vezes mais longo para ir à escola todos os dias, só para não ter que passar por lá. Lembro de comentar com a minha mãe e ela me responder, talvez com mais medo do que eu, que “você pode ter entendido errado, ele não teve intenção de te fazer mal”. Nessa época eu comecei a me questionar sobre a culpa do meu corpo em relação as coisas que aconteciam de bom ou ruim comigo.
Foi também nessa época que iniciei a minha transformação, me tornando dia após dia uma pessoa mais auto-crítica e perfeccionista. O meu corpo nunca foi bonito o suficiente, o meu cabelo nunca foi o que eu queria, nem os meus seios, nem a minha barriga, nem os meus lábios, nem as mãos, os pés. Nada me deixava completamente feliz em mim. Era mais árduo ainda usar óculos na escola, ter o cabelo curto, os dentinhos separados. As crianças eram muito más e de insatisfeita comigo já bastava eu. Tudo aquilo me machucava muito.
Com 8 anos perdi o meu avô materno, o que tornou tudo ainda mais amargo. Poeta, pintor, tradutor, meu artista predileto dos olhos verdes mais lindos que esse mundo já viu. A mulher dele, minha avó, pianista clássica formada pela primeira turma do Instituto de Artes de Porto Alegre. Duas pessoas incríveis vertidas em arte, que também, sem saber, me faziam exigir e esperar mais de mim mesma.
Mesmo assim eu nunca me imaginei trilhando outros caminhos. Eu sou arte da cabeça aos pés, música, dança, ilusões e amor infindável. E foi no ser artista que me entreguei ao que já existia de mim e ao que eu ainda poderia inventar. Entre essas tantas invenções, o meu corpo, o meu contorno, o meu contato e experiência com o espaço que me cerca, com o ambiente que me tem. Deixei de comer carne porque pesava em mim sob vários ângulos. Mudei meus olhares. Me compreendi e me libertei, começando por aceitar o meu formato corporal.Nada mais justo do que estar envolvida nesse projeto lindo e reconstrutor que é o Bendito Fruto. Nós somos, em essência, seres nus… E de repente, de um jeito extremamente assustador, o “natural” é estarmos escondidos em nossas roupas, mantendo em segredo algo que de secreto tem muito pouco. A nudez é a maior verdade do mundo e isso dá medo, mas não deveria.
Meu corpo não é feito para agradar a padrões, para ser visualmente interessante para quem quer que seja ou para provocar sensações. O meu corpo é feito para ser. Ser corpo e ser meu. Ele me torna única e, principalmente, ele me torna real.”

“Eu não gosto de planos definidos, limitar ou racionalizar cada passo que dou é menos ousado do me permitir ser vivida. Na maioria das vezes os meus sonhos se realizam e só depois eu descubro o quanto eu queria que eles se realizassem. Acho que eu sonhos todos os sonhos do mundo, e talvez esse seja o melhor jeito de me encontrar nas minhas intenções. No fim a minha maior certeza e segurança é a de que sempre estou no lugar onde eu deveria estar, e isso me faz feliz.”