Aléxia Coimbra

Me chamo Aléxia Coimbra Anzorena, porém costumo usar só o Coimbra. Tenho verdadeiro pavor do meu último sobrenome. Tenho 21 anos, recém completados. Comemorar aniversário para mim é tudo de bom!
Sou estudante de nutrição á noite, estou no quarto semestre. Antes de entrar para a faculdade tive muita dificuldade para a escolha do curso, eu não sabia o que eu queria e a pressão para a escolha do curso foi aumentando cada vez mais… A primeira escolha foi administração, fiz vestibular na UFGRS, mas não passei. Foi Deus, pois administração não tem nada a ver comigo. A segunda foi biomedicina, minha tia estava cursando na época e me contava sobre o curso e eu achava um máximo.
Esse mês fez dois anos que ela se formou, é a primeira da família com ensino superior. Também fiz vestibular na UFRGS, não passei. Entre tantas escolhas e indecisões veio a nutrição, e essa escolha não poderia ser melhor. Estou amando meu curso e sei que serei uma ótima profissional.
Faço estágio de nutrição de manhã na Fundação de Proteção Especial do Rio Grande do Sul. Trabalho em dois Nares, Belém Novo com quatro abrigos e Luís Fatini com cinco abrigos. O Belém são crianças e o Fatini são adultos com deficiências. A demanda de trabalho é grande, são nove casas para cuidar, são nove cozinheiras para lidar. Mas gosto do meu trabalho, gosto de poder ser útil, de estar aprendendo tanto e gosto de estar com os acolhidos. Acredito que eles gostam de mim também.
O Belém é diferente do Fatini. Apesar de ser triste a realidade dos abrigos, quando entro em alguma casinha vejo uma casa normal com uma família grande, e como toda família existem brigas e birras. As crianças são muito amorosas, são carentes.
O Fatini são as crianças grandes. Eles são sensacionais, muito amorosos, adoram conversar e amam uma festa. Quando estou chegando nas casinhas, já no caminho eles me beijam, me abraçam, pedem dieta, pedem festa. Eu poderia falar de todos aqui, cada um tem seu jeitinho de ser, cada um tem sua história de vida, sua carência. Acredito que eles sejam felizes, ali é a casa deles, a família deles. Quando estou lá com eles tento dar toda a atenção do mundo, quando eles sorriem eu sorrio, meu coração sorri.
É difícil descrever o que é trabalhar em um abrigo. Não é fácil, admiro os agentes educadores que trabalham diariamente com eles, admiro os que fazem de tudo para tornar a vida deles a mais normal e tranquila possível, que fazem com que sejam uma família, que não desistem mesmo com as limitações, com as crises.
Essa experiência está sendo maravilhosa. Largar meu emprego de quase três anos de trabalho, com carteira assinada e tudo ano passado para fazer estágio de nutrição foi a melhor escolha da minha vida. Mesmo ganhando menos, não me arrependo.
Moro com a minha avó, três gatos e um cachorro. Sou filha única, morei a maior parte da minha infância com a minha avó, pois minha mãe trabalhava muito. Não sou mimada, nunca tive tudo nas mãos, desde pequena ajudava minha vozinha nas tarefas de casa.
Há dois anos morava com a minha mãe, pertinho da minha casa atual. Éramos vizinhas da minha avó. Minha mãe estava separada e casou-se novamente, porém foi morar em Gravataí; não quis ir com ela. Voltei a morar com a minha avó e nos damos muito bem, uma ajuda a outra.
Eu sinto saudades da minha mãe. Nos vemos pouco, geralmente nos finais de semana. Nos primeiros dias que já estava na casa nova, ficava durante o dia na função do novo quarto. Pintar, comprar moveis novos… também ficava imensamente preocupada com meus gatos.

Trouxe a Sofia e o Yuri, nos primeiros dias eles ficavam no quarto da minha avó e aos poucos eu ia soltando eles pela casa, até chegarem na rua; com um medo enorme deles fugirem. Mas eles acostumaram-se bem rápido. Já havia três gatas, a Mimosa, a Pipoca e a Branquinha, que logo faleceu. Quando chegava à noite meus olhos enchiam de lagrimas de saudades da minha mãe. Os dias foram passando e fui me acostumando com a ausência dela todos os dias.

A minha gatinha Sofia não era uma gata normal. Ela conversava comigo como os olhos e/ou miando, ela me entendia e eu entendia ela – não consigo conter as lagrimas agora – ela dormia comigo, me abraçava. Quando eu chegava em casa chamava ‘’Sofi’’ ela vinha correndo.

Um dia ela estava pegando sol do lado de casa e dois cachorros pegaram ela. Entrei em desespero. Levamos no veterinário. Foram duas semanas de sofrimento e de gastos. Eu juro que eu não me importava de pagar o absurdo que fosse, eu só queria ela de volta, bem.

Durante essas duas semanas fui todos os dias, na clínica pra ficar com ela e quando eu estava lá ela sabia que era eu, sabia que era a mãezinha dela. Me sinto culpada por ter feito meu bichinho sofrer tanto, eu podia ter feito mais, podia ter levado em outra clínica, sei lá, só sei que eu podia ter feito mais.

Muitas pessoas não entendem esse sentimento, me acham louca. Nem eu entendo, é um sentimento forte e bom, é amor de verdade, é inexplicável. Faz um ano que ela se foi, faz um ano que sinto saudades. Me pego chamando minha outra gata, Mimosa, de Sofia.

Eu amo meus gatos. Amo gatos, quando eu for velhinha vou ter muitos gatos na minha casa. Minha avó fala que em outra vida fui um gato porque eles gostam muito de mim, assim como gosto deles. É um amor maior que eu.

Minha mãe é maravilhosa. Eu amo estar com ela, engraçada como ninguém, sempre me faz rir. Uma batalhadora. É a melhor pessoa do mundo para mim, a minha heroína, a minha maior paixão, o meu maior orgulho, o meu primeiro amor.

Quando ela ficou grávida meu pai não quis assumir a gravidez, assumiu porque foi praticamente obrigado pelo meu tio. Logo após meu nascimento ele casou com uma mulher grávida e assumiu a gravidez, dizia que Deus iria perdoar ele fazendo isso, pois ele não quis me criar. Adotou mais uma filha e teve mais uma. Conheci as três uma vez, mas não considero minhas irmãs, assim como não considero ele como meu pai. Sou ele escrito, a única filha que é a cara dele. Nos vimos três vezes. Nunca senti falta de ter um pai, sempre tive minha avó, que fazia papel de mãe, pai e avó.

Minha avó sempre foi uma batalhadora. A vida dela não foi fácil, teve cinco filhos, era pobre. Mas ela conseguiu criar todos os filhos e me criar com muito amor e carinho, ensinando o certo e o errado. Lutou e agora tem uma vida melhor, ela mereceu e merece muito mais. Ela tem um coração enorme, sempre pensa e ajuda todo mundo. Ela é mãe, pai e avó. Tenho imenso amor e orgulho dela. Também é a minha heroína, o meu maior orgulho. Quero me formar, trabalhar. Quero dar orgulho para elas, quero um dia poder retribuir tudo o que elas me dão.

Tenho uma família grande, porém desunida e complicada. Poderia falar das qualidades e defeitos de cada familiar meu, mas seriam escritas páginas e páginas.

Quero falar da minha prima, Valentina. Ela tem sete anos, é linda, parece uma boneca. Ela tem olhos grandes, muito expressivos, é gordinha, vivo apertando aquela barriguinha gostosa. É muito, muito falante, criativa, amorosa e geniosa. Geralmente ela passa os finais de semana aqui. É um grude comigo, grude mesmo. Dorme comigo, assiste desenhos e filmes comigo, toma banho, conversa e brinca comigo. É pima pra lá, pima pra cá, é Lelê pra lá, Lelê pra cá. Sim, ela tem problema em pronunciar o R. É uma casa cheia e uma ótima companheira. Ela gosta muito de comer, principalmente doces. Fazemos bolos juntas, cada final de semana é um sabor, o último que fizemos foi de chocolate e ela amou.  Tão fofa, está deixando a franja crescer para ficar o cabelo igual ao meu. Como não amar né?!

Tem minha afilhada também, Gabriela, irmã da Valentina. A Gabi tem quase dois aninhos, é linda, tem um sorriso lindo e é geniosa igual a mana. Há pouco aprendeu a caminhar, e mesmo caminhando por toda casa, mexendo em tudo, não dispensa um colinho. Eu gosto de cuidar, dar banho, comidinha, de trocar a roupa, de brincar com ela. Sempre deixo ela igual a uma boneca. É cansativo, confesso. Mas receber um abraço e um sorriso dela é gratificante.

Elas são sensacionais. Eu amo as duas e cuido com todo o amor do mundo. Acredito que serei uma ótima mãe, claro, daqui há uns bons anos.

Tive uma infância maravilhosa. Tenho amigos com quem sei que posso contar e amo cada um deles com todo o meu coração. Cada um tem seu jeito de ser, seus gostos e suas manias e eu tenho uma imensa facilidade de lidar com cada um deles.

Acredito que tenha demorado a aprender o verdadeiro significado da palavra amizade, demorei para ver quem eram meus verdadeiros amigos. Ser amiga é muito mais que comentar ‘’linda’’ em uma foto, sair para festas. É mais do que pedir conselhos quando a situação aperta, ou chamar a amiga para a balada quando você está triste. Ser amiga é ter sintonia. É sentir que a outra está distante, e ir lá perguntar o porquê. É perceber que a outra está mal humorada, passando por uma fase difícil, e não se afastar. Ser amiga é muito mais que tirar uma foto sorrindo uma do lado da outra; é permanecer juntas mesmo após erros, tropeços e problemas. Ser amiga não é esperar perfeição da outra, é saber que apesar dos inúmeros defeitos, existe uma pessoa incrível ali do seu lado que feria tudo por você. E eu tola, demorei a aprender isso. No fim não há quem não decepcione você, e não há quem você não decepcione. Vivendo e aprendendo né?!

Quando eu era criança tinha o sonho de ser veterinária, ter um imenso lugar para colocar todos os cachorros de rua, ajuda-los, dar amor e carinho. Infelizmente não consigo lidar com sofrimento, agulhas, ferimentos. Então coloco em prática metade do sonho, ajudo quando vejo um animal de rua. O mundo tem tantas coisas ruins e tristes, para mim essa é a que me deixa mais triste, pois eles não sabem falar, não sabem se defender e isso corta meu coração.

inveja mesmo, só tenho de quem deita na cama, vira para o lado e dorme. Assim. Nessa sequência. Quem não se rende aos pensamentos. Quem não se deixa levar pela imaginação. Quem não morre de saudades. Quem não se perde nas vontades. Quem não pensa. Quem só, assim, dorme. Sem delongas. Sem gastar sono com a mente girando. Dando voltas. Indo e vindo para lugares diversos, menos para a tranquilidade de um sono profundo. ’’

Já tive dois namorados. Cada namoro durou um ano e pouco, namoros ruins. Mas aprendi muito, cresci muito com cada um deles. Já me apaixonei muitas vezes e sempre acabei quebrando a cara como dizem. Me apaixonei de verdade por uma pessoa, um cara. Um idiota. Depois de muito tempo esperando por alguém que no fundo eu sabia que não viria. Depois de muito tempo sendo idiota. O meu coração parou de bater por ele, o meu estômago parou de embrulhar ao vê-lo, o meu cérebro parou de pensar nele, cada órgão do meu corpo parou de querer ele. Depois dele eu prometi para mim mesma, que eu iria beijar sem me apaixonar, namorar sem me apegar, escutar e não acreditar, abandonar antes de ser abandonada.

Nem me apaixonar, nem me decepcionar. E eu só quero uma certa calmaria antes que venha uma nova tempestade. Porque eu sei, elas sempre vêm. Aprendi que sou inteira demais para ser metade de alguém. Minha avó sempre fala que quando meu coração bater mais forte por alguém nada disso fará sentido. Concordo com ela. Acredito que sexo é escolha, amor é sorte. Ainda não encontrei a minha sorte e confesso e não estou com pressa de encontrá-la.

Sou virginiana. Gosto de tudo certinho, sou perfeccionista. Todo esse metodismo e desejo por organização é para compensar a bagunça que tenho dentro do meu coração, queria poder tirar tudo de dentro da minha cabeça, organizar e colocar de volta. Sou geniosa. Na verdade, não tenho muita paciência. Sou um pouco mandona e orgulhosa. Amo comer! Tenho sono, quase uma obsessão por dormir. Nada como não fazer nada e depois descansar né?! Um pouquinho ciumenta, protetora e muito atenciosa e amiga. Tenho um lado caseiro, que gosta de ficar em casa, no quarto, ouvindo música, assistindo televisão, mexendo no celular, lendo, estudando ou fazendo qualquer outra coisa, com a minha paz, no meu canto. E tenho o lado rueiro, que gosta de festa, de bebidas, de conhecer pessoas novas, de dançar. Gosto de fechar os olhos e sentir a música.

Não sou romântica. Acredito em interesse à primeira vista. Amor, não. Ele vem com o passar dos dias, com a convivência, com as revelações diárias, com a aceitação do outro exatamente como ele é: imperfeito. Gosto de carpinejar. Antes de dormir gosto de ler sobre a vida, sobre o amor. Sou muito sonhadora. Parece ironia, querer viver um amor no século da putaria. Mesmo sendo bastante sonhadora, tenho os pés no chão. Aprendi a dar tempo ao tempo. Tudo chega no momento certo.

O projeto O Bendito Fruto é sensacional. Eu amei fazer parte deste projeto tão maravilhoso e sério. São pessoas reais, histórias reais. Não são fotos de corpos perfeitos e imperfeitos, são fotos da alma. Captura tuas lembranças, tuas histórias, teus sentimentos. Todas as mulheres e homens deveriam fazer esse ensaio. Ele é extraordinário. Obrigada Renata e Maiquel, vocês formam um casal lindo, dá para sentir a sintonia de vocês. Obrigada por todo carinho, por toda atenção no dia do ensaio e fora dele também.

Agradeço todos os dias a Deus por ter minha família, principalmente pela minha mãe e pela minha avó, pelos meus amigos, pela minha faculdade, pela minha casa. Eu tenho tudo. Sou muito feliz.

Viver dói. Mas acho um privilégio estar viva. Por isso sou grata.

Sonho, vivo e agradeço todos os dias.